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Falar com, em vez de falar de

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28.04.2026

Há um talento muito nosso — não exclusivo, mas particularmente afinado — que consiste em falar de pessoas como quem comenta o estado do tempo. Observa-se, interpreta-se, acrescenta-se um detalhe, e segue-se caminho. Tudo isto com uma naturalidade desarmante. O problema é que, ao contrário do tempo, as pessoas têm nome, história e, sobretudo, direito a responder.

É aqui que começa o desvio. Falar de alguém é cómodo. Não exige risco, não obriga a confronto, não implica a possibilidade — sempre incómoda — de estarmos errados. Falar com alguém, pelo contrário, expõe. Pode correr mal. Pode obrigar a recuar. Pode desmontar a narrativa que fomos construindo com tanto cuidado. Por isso, escolhe-se muitas vezes o caminho mais fácil: fala-se de. E fala-se muito.

A murmuração, que antes era coisa de sacristia ou de café, ganhou estatuto mais sofisticado. Hoje apresenta-se como análise, leitura de contexto, preocupação institucional. Já não é “dizer mal”; é “refletir sobre”. Mas o mecanismo mantém-se intacto: constrói-se uma versão sem a presença de quem está a ser falado. E uma versão, quando repetida, começa a adquirir aparência de verdade.

Hannah Arendt oferece uma chave decisiva: a realidade precisa da presença dos outros para ser confirmada. Sem essa presença, o que temos não é realidade — é narrativa. E a narrativa, quando não é confrontada, fecha-se sobre si mesma. Torna-se impermeável aos factos e resistente à correção.

No quotidiano, isto traduz-se em efeitos muito concretos. O primeiro é a quebra da comunicação direta. Situações........

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