Entre a tradição e o impasse: perguntas ainda por resolver
Há debates dentro da Igreja que nunca desaparecem. Apenas mudam de intensidade. O tema dos chamados tradicionalistas — sobretudo os ligados à Fraternidade Sacerdotal São Pio X — regressa ciclicamente ao espaço público e eclesial, quase sempre envolto em ruído, simplificações e caricaturas. Uns apresentam-nos como guardiões da verdadeira tradição; outros como resistência organizada ao Concílio Vaticano II. Entre estes extremos, talvez falte algo mais simples: colocar perguntas claras para perceber o que realmente está em causa.
A história recente mostra uma coisa evidente: Roma não ignorou o problema. Pelo contrário, tentou resolvê-lo várias vezes, por caminhos diferentes, com papas diferentes e estratégias diferentes — e, ainda assim, o processo permanece parado.
Tudo começa, em termos modernos, com a rutura de 1988, quando D. Marcel Lefebvre ordena bispos sem mandato pontifício, gesto que desencadeia sanções canónicas e abre uma ferida que nunca cicatrizou totalmente. João Paulo II cria então a Comissão Ecclesia Dei para manter aberta uma via de reconciliação. A lógica era clara: evitar que a tensão litúrgica se transformasse numa separação irreversível.
O verdadeiro ponto de viragem chega com Bento XVI. Em 2007, através do Summorum Pontificum, o Papa alemão permite uma utilização mais ampla do missal de 1962, afirmando que a liturgia anterior à reforma conciliar nunca tinha sido juridicamente abolida. O gesto não foi apenas litúrgico; foi eclesial. Bento XVI acreditava que a reconciliação passava por reconhecer que a tradição litúrgica antiga podia coexistir com a forma reformada do rito romano. (vatican.va)
Em 2009, retira as excomunhões dos bispos ordenados por Lefebvre — não como aprovação do gesto, mas como tentativa de remover obstáculos ao diálogo — e afirma claramente que o problema restante era doutrinal: a aceitação do Vaticano II e do magistério posterior. (vatican.va)
A reconciliação esperada, porém, não chegou. Com o Papa Francisco, o processo seguiu por um caminho pastoral. Concedeu aos sacerdotes da Fraternidade a faculdade válida para absolver pecados na confissão — primeiro durante o Jubileu da Misericórdia e depois de forma prolongada — e abriu também possibilidades canónicas para a celebração válida de matrimónios. (press.vatican.va)
Ao mesmo tempo, encerrou a Comissão Ecclesia Dei, sinalizando que a questão já não era apenas litúrgica, mas doutrinal. E, em 2021, com Traditionis Custodes, limitou o uso da liturgia anterior, argumentando que as concessões anteriores tinham, em alguns contextos, gerado novas divisões em vez de unidade. (vatican.va)
Aqui começa o verdadeiro enigma: se Roma abriu portas litúrgicas, canónicas e pastorais, porque é que o processo não avançou?
Talvez seja aqui que valha a pena parar e perguntar:
Primeiro: porque é que tantos jovens sacerdotes, que já nasceram depois do Concílio Vaticano II, procuram formas litúrgicas anteriores? Será procura de transcendência, reação cultural ou sinal de desconfiança em relação ao presente eclesial?
Segundo: estamos perante uma questão litúrgica ou perante duas visões diferentes da própria Igreja — da autoridade, da tradição e da relação entre continuidade e reforma?
Terceiro: como se explica a aceitação plena dos concílios anteriores — sobretudo Trento e Vaticano I — e a dificuldade em acolher o Vaticano II como parte do mesmo desenvolvimento histórico do magistério?
Quarto: quando Bento XVI abriu amplamente a possibilidade do rito antigo, esperava-se uma aproximação. Porque não aconteceu? Faltou reciprocidade no diálogo?
Quinto: as concessões sacramentais feitas por Francisco devem ser entendidas como passos rumo à comunhão plena ou apenas como soluções pastorais para evitar insegurança entre os fiéis?
Sexto: num diálogo eclesial, que passos concretos foram dados do lado tradicionalista para reconhecer plenamente o magistério pós-conciliar?
Sétimo: pode manter-se indefinidamente uma situação em que há reconhecimento de validade sacramental, mas não plena comunhão jurídica e doutrinal?
Oitavo: as ordenações episcopais sem mandato pontifício colocam uma questão decisiva: qual é a diferença entre validade e licitude? Mesmo admitindo a validade sacramental — e portanto a sucessão apostólica — não existe aqui um problema de exercício legítimo da autoridade? Pode haver sucessão apostólica sem comunhão efetiva com Pedro? E não haverá o risco de um “aproveitamento” da validade sacramental desligada da unidade eclesial que lhe dá sentido?
Nono: que Igreja presidem estes bispos, se o episcopado católico está tradicionalmente ligado a uma Igreja particular concreta?
Décimo: afinal, o debate é sobre o passado ou sobre o futuro da Igreja — sobre quem tem autoridade para interpretar a tradição e definir a continuidade entre o antes e o depois do Concílio?
Há ainda uma pergunta que atravessa todas as outras: se durante anos Roma abriu portas e fez concessões concretas, porque permanece a sensação de que o diálogo avança apenas de um lado?
Talvez seja aqui que o impasse se revela. Não numa guerra de missais, mas numa divergência mais profunda sobre o que significa estar plenamente em comunhão com a Igreja Católica.
Este não é um debate para slogans. Não é uma questão de vencedores e vencidos. Mas também não é um assunto neutro. Está em causa a unidade, a autoridade e a própria compreensão da tradição católica.
E talvez a história ofereça já uma última pista. Ao longo de dois mil anos, a Igreja de Jesus Cristo atravessou crises, cismas, reformas e rupturas — e continuou de pé, precisamente porque permaneceu unida em torno da comunhão apostólica. Muitos caminhos paralelos surgiram ao longo do tempo; quase todos acabaram por ficar do outro lado da história. Talvez seja essa a pergunta silenciosa que permanece no fim deste debate: quem permanece ligado à comunhão atravessa os séculos — quem escolhe caminhar à margem, mais cedo ou mais tarde, pode acabar por ficar apenas como memória.
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