Continuar: Joana Marques, Paulo VI e a liberdade interior |
Há quem ensine pelo que diz e há quem ensine, muito mais eficazmente, pelo que faz — ou, neste caso, pelo que continua a fazer. No dia seguinte. À mesma hora. Como se nada fosse. É isso que, sem nunca o ter pretendido, me ensinou Joana Marques, num tempo em que quase tudo parece girar em torno da reação, do eco, da resposta imediata, do barulho que se faz depois das palavras serem ditas.
Vivemos numa época curiosa: já não interessa tanto o que se diz, mas o que os outros fazem com aquilo que ouvem. Uma frase é rapidamente arrancada do contexto, passada pelo filtro da sensibilidade pessoal e devolvida ao mundo como ataque, julgamento moral ou violência simbólica. A partir daí, instala-se o ritual habitual: indignação em cadeia, pedidos públicos de desculpa, exigências de retratação, tribunais improvisados nas redes sociais. O que começou pequeno acaba invariavelmente grande, pesado, dramático — como se a vida dependesse daquela polémica.
É neste cenário que Joana Marques se torna interessante. Não porque diga coisas explosivas — raramente o faz — mas pela desproporção evidente entre a banalidade do humor e a intensidade das reações que provoca. Observa, comenta, ironiza. Às vezes acerta, outras falha. Como qualquer pessoa. A diferença está no depois. No dia seguinte, lá está outra vez. Não entra em modo penitencial, não transforma a polémica numa identidade, não passa dias a explicar-se. Continua. E isso, hoje, é tudo menos trivial.
Durante muito tempo, confesso, vivi demasiado atento ao olhar dos outros. Como padre, isso é quase inevitável. Há uma exposição pública regular, uma palavra dita todas as semanas, um conjunto de expectativas que nos são colocadas em cima........