As botas que não eram do meu número
Dizem que, um dia, Deus deixou à porta do mundo um par de botas gastas. Não eram bonitas. Estavam sujas de caminho, molhadas de lágrimas, marcadas de pedras. Ninguém sabia de quem eram, mas eram evidentemente de alguém que tinha caminhado muito.
As pessoas passavam e olhavam com curiosidade. Um homem apressado comentou: “São botas de quem não sabe cuidar de si.” Uma senhora elegante disse: “Que desleixo.” Um jovem tirou uma fotografia e escreveu: “Alguém que não sabe escolher a vida.” Os comentários foram crescendo como ervas daninhas. Ninguém tinha calçado as botas, mas todos tinham opinião.
Ao fim da tarde, apareceu uma criança. Não disse nada. Limitou-se a sentar-se no chão e a tentar enfiar os pés naquelas botas enormes. É claro que lhe ficavam grandes. Mas deu dois passos e parou. Voltou-se e murmurou: “Dói.” E depois, com a sua seriedade de criança, acrescentou: “Então, quem as calçou deve ter doído muito mais.”
Foi aí que o céu sorriu.
O problema do nosso tempo não é que as pessoas falem. É que falam sem calçar as botas do outro. Não perguntam qual foi o caminho, quantas noites sem dormir, quantos medos escondidos, quanta coragem silenciosa há dentro de alguém que passa........
