“Não há santo sem passado, nem pecador sem futuro”

A forma como se escolhem os bispos em Portugal permanece um dos processos mais silenciosos e menos compreendidos da vida da Igreja portuguesa. Num tempo em que o discurso eclesial exalta a sinodalidade, a escuta e a participação, torna-se difícil justificar que a escolha daqueles que hão-de presidir, ensinar e governar as Dioceses continue envolta num sigilo que já não acompanha o espírito do tempo, nem responde às exigências pastorais do presente. A tensão entre aquilo que se proclama e aquilo que se pratica cria uma espécie de desfasamento institucional que se sente em quase todas as comunidades, mesmo quando ninguém o verbaliza de forma explícita.

A teologia episcopal é clara: quando um bispo é ordenado para uma Diocese, “casa-se” com ela — vínculo sacramental, irrepetível, definitivo. Mas no modo como as nomeações são vividas, percebe-se outra mensagem: parece que algumas Dioceses são tratadas como destinos provisórios, outras como lugares de passagem, outras ainda como territórios onde se “acomodam equilíbrios”. Esta não é a doutrina da Igreja; é a percepção criada por práticas que, com o tempo, contradizem o ideal que a própria Igreja ensina. E quando se verifica que algumas Dioceses chegam a ficar meses ou anos à espera de pastor, não é apenas o tempo que se perde — é o sentido de pertença que se fragiliza.

O processo de nomeação, tal como hoje existe, é quase totalmente exterior à vida das comunidades. O povo de Deus não é consultado, o clero local não é envolvido de forma real, e muitas vezes as próprias Dioceses descobrem quem será o seu bispo no mesmo momento em que os meios de comunicação anunciam a decisão. A ausência de participação gera inevitavelmente distância. E quando um processo tão decisivo é vivido como algo imposto e não como algo discernido, instala-se a sensação de que a Igreja fala de sinodalidade, mas escolhe pastores sem sinodalidade.

Dentro deste ambiente fechado — não secreto, mas —........

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