O Silêncio de Nicósia
Existe uma capital europeia onde se pode tomar café numa esplanada, caminhar algumas dezenas de metros e encontrar soldados, arame farpado e postos de controlo das Nações Unidas.
Existe uma capital europeia dividida por uma linha militar há mais de cinquenta anos.
Essa cidade não fica no Médio Oriente.
Nem sequer nos Balcãs.
Fica na União Europeia.
A última capital dividida da Europa permanece cortada ao meio por uma zona tampão patrulhada pelos Capacetes Azuis da ONU. De um lado, a República do Chipre. Do outro, a autoproclamada República Turca de Chipre do Norte, reconhecida apenas pela Turquia.
Apesar de tudo isto, raramente se fala dela.
A Europa gosta de se apresentar como guardiã do direito internacional. Os seus líderes falam frequentemente da inviolabilidade das fronteiras, da soberania dos Estados e da necessidade de condenar qualquer alteração territorial obtida pela força.
São princípios nobres.
São princípios corretos.
Mas também são princípios que parecem sofrer de uma estranha amnésia seletiva.
Há cinquenta anos que um Estado-membro da União Europeia vive com parte do seu território ocupado por tropas estrangeiras. Há cinquenta anos que dezenas de milhares de pessoas vivem com propriedades perdidas, memórias interrompidas e uma reunificação eternamente adiada.
Falamos da invasão turca de Chipre.
Falamos de uma realidade que, apesar da sua gravidade histórica e geopolítica, raramente ocupa espaço no debate público europeu.
Talvez porque o conflito seja antigo.
Talvez porque seja complexo.
Talvez porque as circunstâncias que conduziram à invasão não permitam uma narrativa simples de bons e maus.
Mas o silêncio continua a ser estranho.
Em julho de 1974, um golpe de Estado........
