Os que testemunharam, mas não escolheram

Myanmar teve “eleições” este passado mês de Dezembro, mas a palavra vem com aspas invisíveis. Não por preciosismo, por higiene. Porque quando um regime que governa pelo medo coloca uma urna na rua, aquilo não é necessariamente uma democracia. Pode ser apenas um objeto a tentar convencer o mundo de que a violência tem boa caligrafia.

Uma urna, por si só, não é liberdade. É só uma caixa. O que lhe dá sentido é outra coisa, muito mais frágil e muito mais rara: o consentimento.

A teoria democrática chama-lhe legitimidade, como se fosse uma ideia abstrata. Mas a legitimidade é concreta. É a diferença entre o Estado como casa comum e o Estado como ocupação. É o momento em que as pessoas obedecem não porque tremem, mas porque reconhecem.

E é aqui que Myanmar nos obriga a olhar com honestidade para uma pergunta que o mundo prefere evitar: o que acontece quando a democracia é reduzida a procedimento, quando a política é substituída por logística, quando o voto é transformado num ritual que serve mais para legitimar poder do que para distribuí-lo?

Os generais no poder apresentaram um calendário eleitoral em fases, como se a liberdade pudesse ser repartida em capítulos. Vota-se em datas diferentes, em porções diferentes do país, num país que não é, de facto, um país inteiro em termos de controlo territorial. Há zonas onde a votação nem sequer acontece, oficialmente por razões de “segurança”, na prática porque a guerra e o poder não se sentam à mesma mesa. Isto não é um detalhe técnico. É a própria........

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