A crise da água não é climática; é de planeamento

Durante décadas, a explicação mais repetida para a crise da água em Portugal tem sido simples: chove menos porque o clima mudou. Esta narrativa tornou-se dominante no discurso político, técnico e mediático. É confortável, porque desloca a responsabilidade para um fenómeno global, difuso e aparentemente incontrolável. Mas para quem trabalha no território, mede solos, lê linhas de água e acompanha a resposta real das paisagens, esta explicação é manifestamente insuficiente.

Portugal não é, por natureza, um país seco. Em grande parte do território continental, a precipitação média anual continua a ser superior à de vários países europeus que não enfrentam níveis comparáveis de stress hídrico. A diferença não está apenas na quantidade de chuva. Está, sobretudo, no destino da água quando esta toca o solo.

Ao longo do último século, o território português foi progressivamente desenhado para expulsar a água. Caminhos rurais foram transformados em valas de drenagem. Linhas de água foram rectificadas e aprofundadas. Socalcos foram abandonados ou destruídos. Sebes, muros de pedra seca e pequenas retenções tradicionais desapareceram em nome da eficiência mecanizada. Os solos foram compactados por maquinaria pesada e práticas agrícolas........

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