O temível regresso dos Acácios

Para um país onde metade dos eleitores não exerce o direito de voto e o discurso público passa, genericamente, ao lado de tudo o que são as grandes questões do seu tempo, não pode deixar de ser um paradoxo a forma como o mundo mediático português se agita em frémitos de excitação com a “actualidade política”. Por estes dias, claro está, as eleições presidenciais cobrem o pleno da atenção — há que espremer a vaca até ao último clique — com a corrida ou, como muitos gostam de colocar a coisa, o “embate”, entre André Ventura, o novo enfant terrible da política nacional, e António José Seguro, o português detentor do record no Guiness para o político menos interessante do planeta.

Não me levem a mal, Seguro, para além do chavão, agora inevitável e por todos compungidamente repetido, que garante e certifica a sua impoluta honestidade, parece-me um indivíduo simpático. Ainda assim, apesar dessa aparente simpatia e apregoada honestidade, devo admitir que, não lhe conhecendo especial causa ou ideia, ainda me lembro dos tempos onde, quer liderando o PS quer por lá cirandando nos corredores, nos brindava com os lugares comuns do costume, repetindo com gosto e monótona convicção a mesma cassete dos grandes clássicos socialistas do nosso século — Guterres, Sócrates e Costa. Daí que, não levando a mal quem vá na cantilena, lamento, mas não a compro.

Desde logo, não sou socialista, pelo que vejo com natural apreensão, senão aversão, o discurso gasto, pobre e obsoleto com que Seguro se faz agora timoneiro apelando às grandes forças democráticas, humanistas e, para arrepiar os pelos da nuca, “progressistas”. Mais, vejo o partido socialista como a força política que piores danos causou a Portugal nas últimas décadas. Primeiro, foi com o PS que Guterres nos atirou de tanga para um pântano do qual, em boa verdade, nunca saímos, estando ainda hoje agarrados a um modelo de endividamento, estatização e centralização políticas. Depois, foi também com o PS, então com Sócrates — e Seguro confortavelmente sentado como deputado na Assembleia da República — que, entre 2005 e 2011, o socialismo nos afundou, aí já de fio-dental, no pântano ainda mais profundo da bancarrota. Finalmente, foi também o PS, desta feita com Costa, que após uma governação dificílima de Passos Coelho — bem-sucedida à conta de inúmeros sacrifícios exigidos aos portugueses —, os mesmíssimos socialistas, com os ventos soprando favoráveis devido à mudança de políticas do BCE e da UE, trataram de tudo desfazer, mandando borda fora a derradeira oportunidade de relançamento da prosperidade nacional neste primeiro quartel do Século XXI.

A verdade é que o PS custou-nos, não apenas décadas de desenvolvimento, isso é certo, mas, pior, desbaratou por porca conveniência política a soberania económica nacional face a Bruxelas naquelas que, somadas, terão sido as piores governações político-económicas dos últimos 100 anos em Portugal. Do mesmo modo, também não me esqueço que durante esta última década de vergonhosa destruição do país às mãos de um PS acolitado pela extrema-esquerda — hoje felizmente moribunda — Seguro manteve-se, como todos os bons socialistas, calado. Ou seja, não apenas foram o partido de Seguro junto com toda essa pandilha morta-viva da “geringonça” — uma tropa-fandanga que vale eleitoralmente o equivalente a dois Manuéis Joões Vieira — os grandes responsáveis por vivermos hoje de espinha vergada e mão estendida à espera das ordens de Von der Leyen, como são........

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