O bezerro de ouro
Reza a lenda, ou neste caso uma carta escrita por um irado Johann Georg Hamman, que, num final de tarde de 1768, em Konigsberg, Immanuel Kant, em amena conversa com amigos, dissertava sobre os magníficos avanços da ciência, louvando os novos conhecimentos astrofísicos. Empolgado, relata Hamann, Kant decretava que o conhecimento astrofísico havia atingido uma perfeição tal que nele seria impossível que coubessem novas teses.
Não será, portanto, de estranhar que tenha sido precisamente da pena Kantiana que se soltasse a húbris das conclusões ultra-sistemáticas, e portanto revolucionárias, na medida em que se pretendiam totalmente explicativas da razão, da mente, do mundo e da vida, do tempo e do espaço ou, também, da ordem e da espontaneidade e, concomitantemente, da moral e dos costumes, tal como, ainda, dos pensamentos e das sensações, do entendimento e da sensibilidade, dos opostos e dos sinónimos, do belo e do sublime, de Deus e das “coisas em si mesmas”, do puro e do subjectivo, da sensação e dos fenómenos, enfim, e em suma, do Todo, bem como tudo devidamente organizado, listado, sistematizado.
Foi, aliás, nessa húbris que Nietzsche vislumbrou o feito mais significativo dos últimos milénios: Kant teria premido o gatilho no maior homicídio perpetrado na história da Humanidade — o de Deus. No que consistiu, então, o homicídio divino? Na representação teórica estabelecida por Kant para o ser humano procurar por si próprio, através da razão, qual a acção moral adequada a um determinado dilema. Kant “mata” Deus, portanto, não porque o renegue, coisa que nunca fez, mas porque, a seu tempo, o tornou dispensável no julgamento do comportamento moral dos homens. Na prática, Deus, pela mão de Kant, passou então o testemunho do julgamento sobre o Bem e o Mal a todo e qualquer indivíduo — eu, tu, nós — desde que munido de racionalidade. No fim, de uma perspectiva filosófica, na procura de uma solução racional para o dilema moral da Humanidade, como subproduto, Kant tornou Deus, e com Ele a Igreja, moralmente irrelevantes.
A revolução Kantiana foi ainda mais longe. Ao retirar Deus da equação moral, Kant abriu caminho também para a sua substituição conceptual pela própria razão. Onde antes Deus figurava como a fonte, o chão, a origem, do bem e da verdade, da justiça e da luz que iluminava o mundo e o Homem, passou então a surgir a razão, a sucessora de Deus no tempo da “secularização” moderna no altar da autoridade da hierarquia moral. O credo é simples e, quando explanado, intuitivamente por todos bem conhecido: a razão é boa, porque verdadeira, é justa, porque racional, é a base da ciência que, desse modo, ilumina o mundo e o Homem com a sua luz, afugentando as trevas obscuras das tradições, do irracionalismo, da injustiça, da inconsciência, da Fé — eis, em poucas palavras, o credo da modernidade.
Não foi difícil a esta noção triunfar no Ocidente Cristão: afinal, para o pensamento Cristão desde a tradição de Santo Agostinho à de São Tomás de Aquino, aquilo que é racional sempre coincidiu com o que é bom, justo e verdadeiro, bem como configura uma expressão de Deus. Do mesmo modo, não foi também difícil conciliar esta ideia com as bases clássicas do Ocidente:........
