A ópera bufa

Entramos em 2026 em plena campanha para a Presidência da República. Este facto, permitam-me a partilha pessoal, suscita-me um momento de particular felicidade: independentemente do resultado, a proximidade do acto eleitoral significa que muito em breve será substituído Marcelo Rebelo de Sousa, essa figurinha que, aos pulos, babando-se, sem filtro e de forma constantemente embaraçante, denegriu o cargo de chefe de Estado durante os últimos 10 anos. Está chegando, pois, o momento em que, seja a pé, seja a cavalo, de burro ou trotinete, para alívio generalizado, o Prof. Marcelo desaparecerá no horizonte político da memória, ainda que sem rasto, que é como quem diz, sem obra ou marca de especial relevância — pelo menos, positiva.

Posto isto, a verdade é que há eleições, um evento que tem animado sobremaneira o país, pelo menos o mediático — já o real não sei se assim tanto —, dando lugar a milhares de entrevistas, centenas de estudos de opinião, dezenas de debates, tudo devidamente documentado por milhares de milhões de jornalistas (pelos menos assim soam) e triliões de comentadores (alguém lhes conhece sequer o nome?). Já quanto a mim, no que concerne a peleja eleitoral, admito o profundo desinteresse. Primeiro, e precisamente porque se trata de substituir o actual inquilino de Belém, por princípio, quem quer que venha a seguir não poderá fazer muito pior: afinal, Marcelo, mais que o ridículo generalizado ao qual se expôs — a si e a nós, diga-se — durante todos estes anos, conseguiu ser o maior factor de instabilidade política do país, simultaneamente o garante e o entrave do regular funcionamento das instituições, bem como, muito mais grave, o defensor oficial e o maior infractor do ordenamento constitucional português. Pior que isto, como é óbvio, será difícil.

De facto, porventura com uma excepção, olhando para os candidatos à sucessão, tal como analisando as possibilidades de vitória de cada um, se é certo que nem Marques Mendes nem Seguro entusiasmam particularmente, a verdade é que qualquer um dos dois representaria um mal menor face ao actual presidente: é uma espécie de duo Tiririca, pior que está não fica. Depois, Ventura e Cotrim, não devendo ter grandes hipóteses de eleição a duas voltas (salvo passarem os dois, algo que parece improvável), por mais números que façam apelando aos seus respectivos eleitorados, acabam por animar a festa, marcar presença, dizer umas coisas, mas, à partida, bem no fundo, sabemos todos, não passam de candidaturas meramente instrumentais que visam outros intuitos que não os da eleição presidencial.

Assim, no final, feitas as contas e apanhadas as canas da festa, goste-se mais ou menos, a realidade é que, por oposição ao duo Tiririca, sobra-nos a tal excepção: o famigerado almirante, essa esdrúxula personalidade que, inventada por certos meios de comunicação e interesses particulares, apenas por ter aparecido de farda na TV em histérica ocasião de pânico colectivo, se fez símbolo nacional da “luta contra a pandemia” apregoando a salvação do mundo através da distribuição de injecções experimentais. Ora, tal coisa, para uns motivadora de frémitos de excitação........

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