menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Não está farto de ser consumidor-trabalhador?

32 0
31.03.2026

Devo confessá-la ao leitor, não por julgar que não seja já do seu conhecimento, ou, pelo menos, que não tenha, legitimamente, essa suspeita, mas porque julgo que é um dever de honestidade dar-lhe nota da minha ignorância. Suponho mesmo que o assunto a que se deve a invocação de tal ignorância possa ser indiferente, porque ela se manifesta largamente sobre variadíssimos temas – e, sendo rigoroso, ela avoluma-se à medida que os anos passam; é essa outra grande mentira que nos impingem quando somos jovens, a de que a velhice nos traz sabedoria e conhecimento, quando qualquer velho com tino o melhor que tem a fazer é reconhecer que não sabe praticamente nada ou, no mínimo, andar com a cabeça cheia de dúvidas. Uma delas, e que não me tem ocupado pouco espaço funcional, diz respeito a esta não tão nova modalidade de consumidor-trabalhador em que nos transformámos todos sem oposições, quando não com absoluto encanto e prontidão. Desconheço ou, pelo menos, não me recordo de ter lido grande coisa sobre o assunto, embora desconfie de que sobejam teses de mestrado, de doutoramento, ensaios filosóficos, sociológicos, psicológicos e intelectuais em geral sobre o tema. A minha ignorância, para o caso que aqui me importa, é esta: não faço ideia se se tem escrito muito ou pouco sobre isto. Mas que importa, afinal, o que se escreve se o produto dessa escrita não tem como consequência um debate, por mais pequeno que seja, ao balcão de um café, num lanche com amigos, numa viagem de carro? O que me interessa é que estou absolutamente farto, cansado, irritado,........

© Observador