O Mistério da Educação (XXVI)
A actividade preferida dos professores consiste em falar da sua actividade. Este emprego do tempo é quase um segundo emprego. Lembra um utilizador de uma máquina de lavar a quem apenas ocupe a descrição pormenorizada dos gestos e das dores que experimenta enquanto tira a roupa do cesto da roupa suja e coloca cada peça no tambor; e depois com a caixa da embalagem do detergente (o fardo actual do homem branco), o peso do amaciador, e a preparação para a escolha avisada do programa (um mestrado profissionalizante em ciências da lavagem). Muito sofre quem usa a máquina de lavar. Seria justo, poder, como no eufemismo delicioso, valorizar mais um bocadinho a sua carreira?
Na actividade preferida dos professores espanta principalmente três coisas, respectivamente psicológicas, cognitivas e místicas: o amor que têm ao seu próprio sofrimento, a garantia que dão de que quem não tenha passado pelo mesmo martírio nunca o conseguirá compreender devidamente, e a ideia de que esse martírio está ligado a uma missão. A situação é comparável à de quem nos intervalos dos seus protestos contra as dores da lavagem solicitasse a estima da sociedade alegando como a brancura da roupa que tenciona lavar assim que tenha condições para tal é por definição imprescindível à Escola Púdica e aos Calores de Abril.
A ideia de que quem lava a roupa tem uma missão é exagerada; e a atenção do lavador de roupa aos movimentos que realiza quando enche a máquina diminui o facto de que o critério principal para o que faz é lavar bem a roupa. É contudo da mesma combinação de idealismo cego e materialismo surdo que resultam as auto-descrições dos professores. O que lhes falta é uma noção, mesmo simples, daquilo em que consiste dar aulas, e uma resposta adequada à pergunta elementar ‘Consigo fazer bem aquilo que faço?’. Da maneira como falam depreende-se que dar boas aulas é para a maior parte dos professores um acaso administrativo da vida que não se compara em importância com os inconvenientes para quem as dá e com a seriedade da sua missão.
Quando depois de uma vida inteira de sofrimento se reformam, os professores recapitulam com prontidão os trabalhos que tiveram, e a missão que cumpriram. E quando lhes perguntam em entrevistas se não tiveram algum consolo que lhes fosse mais próprio, enunciam a frase fatal: ‘Aprendi tudo com os meus alunos.’ O professor reformado acha por regra que foi sempre aluno; e acha que os seus alunos foram os seus melhores professores. Tudo na sua vida de professor não terá passado assim de um mal-entendido: falar das suas actividades tirou-lhes tempo, e quem acabou por realizar essas actividades foram os seus alunos. Não podemos por isso excluir que esses alunos, quando se reformarem, também venham a reconhecer nas entrevistas que aprenderam tudo com os seus alunos.
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