O Japão e a ironia de Pequim |
A retórica aquece no Pacífico. Nos últimos dias, a China voltou a acusar o Japão de militarização. O argumento é conhecido: Tóquio está a aumentar o orçamento da defesa, a rever a sua estratégia de segurança, a participar mais activamente em alianças regionais e a discutir alterações ao artigo 9.º da Constituição. Para Pequim, tudo isto representa um afastamento do pacifismo que marcou o Japão do pós-guerra.
Mas há aqui uma ironia difícil de ignorar. Aquilo que a China hoje denuncia não é a causa das tensões no Indo-Pacífico. É uma das suas consequências. Durante décadas, o Japão foi uma excepção. Nenhuma outra grande potência económica aceitou durante tanto tempo limitações tão profundas às suas capacidades militares. O artigo 9.º da Constituição tornou-se um símbolo do compromisso japonês com a paz e da rejeição do militarismo que marcou a primeira metade do século XX.
No entanto, existe uma diferença entre pacifismo e ingenuidade estratégica. Durante anos, o Japão pôde manter uma postura militar limitada porque beneficiava da protecção dos Estados Unidos. A presença americana garantiu estabilidade regional e permitiu a Tóquio concentrar-se no crescimento económico e no fortalecimento das suas instituições democráticas.
Esse equilíbrio, porém, está hoje sob pressão. A norte do arquipélago japonês encontra-se uma potência nuclear imprevisível. A Coreia do Norte desenvolveu armas nucleares, aperfeiçoou mísseis balísticos de longo alcance e transformou a provocação militar numa ferramenta permanente da sua política externa. Os japoneses habituaram-se a viver com notícias de........