Ceuta e a esquerda

As reacções ao desastre de Ceuta deixaram totalmente transparente a posição política que a esquerda europeia ocupa em matéria de imigração. Ceuta foi o caso extremo, o exemplo-limite, que tornou o implícito perfeitamente explícito.

O inefável Pedro Sánchez chamou-lhe “invasão” e “ataque”. No entanto, é questionável que alguém como ele, como os seus ministros e parceiros de coligação, possa descrever aquelas dezenas de milhares de pessoas como “invasores”. É verdade que o raciocínio é mais subtil. Os invasores são, afinal, outros – para o governo espanhol, todos menos Marrocos. São as “máfias”, os Estados Unidos e, para celebrar o anti-semitismo candente na esquerda extrema e na outra assim não tão extrema, Israel. Diz esta tese que as dezenas de milhares de pessoas, na sua esmagadora maioria homens jovens, que se atiraram à água para pôr pé em solo europeu foram apenas carne para canhão, por assim dizer, instrumentos de poderes maléficos. E temos de dizer solo europeu porque, ao contrário do que a mesma esquerda quis fazer crer, ora para pôr em causa a legitimidade geográfica do Estado espanhol no continente africano, ora para produzir cortinas de fumo a propósito das subtilezas do regime jurídico do espaço Schengen, o sentido da migração foi inequívoco.

Mesmo com estas explicações a dificuldade mantém-se. Como é que a mentalidade infantil da esquerda, de que Sánchez é uma manifestação particularmente embaraçosa, pode classificar como “invasão” o que todos vimos acontecer? É que no mundo da esquerda, integralmente governado por palavras de ordem feitas para cantigas de música ligeira ou divisas para as redes sociais, os guias de orientação são coisas como “diz não aos muros que dividem” e “não há pessoas ilegais, apenas sem documentos”. Em Ceuta, os muros abriram-se e caíram. Por que não foi isso motivo de regozijo? Se........

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