O pequeno poder |
Há um animal que prospera – ou que nunca deixou de prosperar – em Portugal, mais resistente que o escaravelho do pinheiro e mais comum que a sardinha no Santo António: o indivíduo do pequeno poder.
Este, pasme-se, não é ministro, não é banqueiro, não aparece nas manchetes — mas reina no seu pequeno feudo com a solenidade de um déspota de um país de terceiro mundo. É o português investido de um fragmento de autoridade e, portanto, convencido de que tem em mãos o destino do mundo — ou, pelo menos, o de quem tiver a infelicidade de lhe cair sob o olhar.
O pequeno poder veste muitas fardas e comporta diversas linguagens. Às vezes é o segurança da discoteca, de auricular no ouvido e ego em expansão, que decide quem entra e quem “hoje não está com perfil”. Noutras, é o funcionário público que carimba devagarinho o requerimento, saboreando o acto burocrático como se fosse uma sinfonia de Beethoven. Há, também, o chefe de repartição que faz da sua mesa uma trincheira de autoridade, o agente que gosta de se ouvir a si mesmo, e o administrador de condomínio que se considera o guardião da moral urbana. E há, talvez, o mais trágico de todos, o professor académico — o sacerdote do saber — que, em vez de libertar, aprisiona.
Na educação, o pequeno poder assume a forma mais cruel e silenciosa.
É o docente universitário que transforma a avaliação num exercício de adivinhação dos seus gostos pessoais. O que confunde “rigor académico” com autoritarismo, e a liberdade de cátedra com o direito divino à........