A cultura não desapareceu. Mudou de plataforma |
Há anos que se repete a ideia de que os jovens se afastaram da cultura. Que deixaram de ler, de ir ao cinema, de frequentar museus. Mas talvez o problema não esteja na falta de interesse, e sim na insistência em procurar cultura nos mesmos lugares de sempre, quando ela já se deslocou para outras plataformas.
Continuamos a falar sobre a dificuldade em envolver os jovens na cultura como se fosse um mistério sociológico. Mas talvez este mistério seja outro: estamos a procurar cultura nos sítios onde ela já não está para boa parte dos mais jovens.
A nova geração não está desligada da cultura. Antes pelo contrário, está profundamente ligada a ela, mas através de formatos que a política cultural ainda não reconhece como legítimos. Vídeos curtos que ensinam, pequenos documentários feitos por criadores independentes, podcasts de análise cultural, newsletters que fazem curadoria de temas complexos. Isto já é cultura. É comentada, partilhada, debatida e, muitas vezes, mais influente que a oferta institucional.
Quando ignoramos esta produção, criamos um afastamento que depois interpretamos como “desinteresse”. Não é desinteresse. É desadequação. Estamos a medir a participação cultural através de métricas que são de outro tempo — contamos entradas em salas de cinema quando a geração Z vê ensaios visuais no TikTok antes de dormir, registamos espetadores de teatro enquanto milhares assistem a monólogos dramatizados no YouTube. Enquanto o fizermos, continuaremos a confundir ausência física com desinteresse.
Este desfasamento afeta também o........