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Uma cidade inexplicável /premium

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15.05.2019

1. O diplomata e o artista estavam perplexos. Em cada caminhada a pé, por ruas, vielas, escadinhas ou avenidas, o espectáculo não variava: entre a dúvida e o espanto, ambos, o ex-embaixador Fernando Andresen, cuja carreira pedia um livro, e o pintor Jorge Martins, que só Deus sabe até onde pode ir nas suas telas, não paravam de se interrogar: haveria assim tanta gente a comprar capas coloridas de telemóveis e tantos interessados capazes de vedar o excesso daquela oferta omnipresente? Parecia subitamente que o artesanato de Nápoles se metamorfaseara exclusivamente em capas de telemóvel — não se via mais nada — mas a proeza não era afinal senão mais um dos apontamentos sui generis que íamos retendo no olhar. Um entre mil. Fomo-nos habituando.

2. Nápoles é uma cidade inexplicável. Não chega recordar lhe as sagas e a história e dizer que foi grande e pátria de dois reinos; gabar-lhe a plácida baía, em cujo espelho de água se reflectem palácios rosa ocre ou verde pálido; beber com sofreguidão um património esplendoroso, olhar, re-olhar e voltar a olhar os Palácios Reais, as estátuas, altares, jardins, mármores, telas, lustres, frescos. E a luz de um Caravaggio, talvez o mais belo Caravaggio, que parece estar à nossa espera, mal passamos o umbral da Chiesa Pio Monte della Misericordia. Não, não chega evocar um passado tão poderosamente presente no presente de Nápoles, mesmo que o guardemos para sempre na mente e na alma. Nem basta reter a sobreposição das glórias e desastres daqueles reinos e daqueles povos, é preciso ir ao quase inexplicável cruzamento de tudo isso com o “actual” napolitano. O hoje, deles. A rua. A cor. As pessoas. As pessoas daquele ruído, daquela vitalidade, daquele trânsito, daquele lixo, daquele pujante comércio modesto ombreando com o melhor luxo. Daquela geografia enfim, onde o verbo é sempre gritado e todas as regras parecem ter caído em desuso, apesar dos carabinieri, que como cogumelos negros, brotam do chão e das paredes. Tão forte e tão impressivo é tudo isto, que por vezes é como se a História conseguisse desvanecer-se, diluindo-se na vibração intensíssima do ar, para imediatamente nos capturar de novo para o poder e o fausto antigos. E eis porventura uma (pobre) explicação para o “inexplicável”: esse incessante, quase ofegante vai-vem entre o que foi e o que está. Entre o deslumbramente sempre aceso do ontem, e a singularíssima paleta, carnuda, pulposa, criativa, com se pinta o hoje. Não há assim tantas cidades como esta, onde se possa ver com os olhos e sentir na pele uma impressão de “conflito-coabitado” mas o conflito é natural. Vai escorrendo. Amável e afável. Uma convivência, melhor dizendo.

3. Um Bellini frente à baía (mas será o Bellini da Norma ou o das esculturas da Praça de S. Pedro? Não importa, a bebida é dos deuses). Esplanada semi-vazia. É um dia de semana, não há muita gente, uma ou outra “charrete” com turistas mais ocupados em fotografar do que........

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