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Um grande livro, um grande homem, uma grande vida /premium

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01.05.2019

1. Desde muito pequenas que as minhas irmãs e eu nos habituámos a conviver com admirável naturalidade com personagens. Na nossa casa do Campo Grande não eram poucos. Uns, com quem vivíamos, outros que vinham, animando serões e tertúlias de toda a sorte, ou enfeitando festas. E depois havia os que já se tinham despedido do mundo mas que permaneciam porém tão concretamente ali impressos que quase podíamos esbarrar fisicamente com eles nos corredores da casa.

Lembro-me por exemplo de quando, no alvorecer da adolescência, tive direito a um quarto de dormir só para mim e refilei por o achar exíguo, ouvir a minha mãe dizer-me, com estarrecedora normalidade: “Então é o quarto que tem o alçapão do Paiva Couceiro…”. Era verdade. O caso é que o meu avô materno, Eduardo Pinto da Cunha, monárquico convicto, tendo-se envolvido de corpo e alma nas Incursões Monárquicas, abrigara algumas vezes Paiva Couceiro. A nossa casa, imensa e fora de portas, prestava-se bem nesse já tão longínquo ano de 1914 a uma oportuna “clandestinidade” mas, pelo sim pelo não, abrira-se por debaixo de uma das divisões — o então meu novo quarto — um alçapão de onde se descia para uma pequena e sombria cave.

Nesse quase final dos anos cinquenta, quando alçapão e cave passaram para mim, outros personagens, felizmente vivíssimos, continuavam porém a selar a casa, com a sua originalidade ou o seu talento. Como por exemplo o poeta Ruy Cinnati ou o escritor Ruben A, que nesse tempo era simplesmente o “Rubinho”, quando, vindo do Porto onde vivia, punha com graça incomparável o seu pé em animados serões dançantes. Ou Sophia de Mello Breyner, poetisa e prima direita de minha mãe. E a quem por isso as minhas irmãs e eu tínhamos sido apresentadas com um cuidado especial, tanto mais que era impossível desligar a poesia escrita por Sophia da memória deixada por ela no Campo Grande, onde, com 17, 18 anos, vivera durante uma temporada e ali se inspirara e escrevera. Deixando-se envolver pelo grande jardim e ouvindo-lhe o sussurro por entre buxos e sombras, canteiros e o lago redondos, com peixes vermelhos: “Agora vou-lhes ler estes poemas da Tia Xixa que foram escritos neste jardim, quando ela aqui vivia, ouçam meninas…”. E nós ouvíamos.

“Atravessei o jardim solitário sem lua/ correndo ao vento pelos caminhos fora/ para tentar como outrora /unir a minha alma à tua /ó grande noite solitária e sonhadora(…)”. Ouvíamos entre o pasmo e a estranheza, mas de quem era aquela voz que nos falava de coisas tão próximas e que era afinal uma tia, de carne........

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