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Presunção de inocência? /premium

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06.03.2019

1. Um dia tocou o telefone e espantei-me: julgava saber que o dr. Rui Patrício militava contra conversas nas ondas ou pelo menos que tal gesto muito o aborrecia. Era ele, porém, em viva voz. Voltei a espantar-me: o advogado que conheci há pouco tempo e apenas no espaço de um almoço e de uma hora num tribunal, convidava-me para uma co-apresentação do seu último livro, “A presunção da inocência no julgamento em processo penal — alguns problemas” (Almedina) Ou melhor, gostaria o seu autor que esta cidadã sem formação jurídica nem experiência do seu universo aterrasse na percepção pública da presunção da inocência e de como a via inscrita no país.

Os espantos lembraram-me outro, mas esse mais forte: fora quando desprevenidamente, há meses atrás, eu dera por um pequeno livro – “Mapa Mundi da Justiça em Bilhete Postal” — onde Rui Patrício ia, com boa mestria, duplamente por aí fora: discorrendo como quem não quer a coisa pelas coisas da Justiça, intervindo, criticando ou deplorando; e por aí fora em sentido literal, percorrendo diversas geografias que de uma ou de outra maneira lhe tinham puxado pela verve jurídica mas também – oh surpresa — por uma cultura literária de primeira água. Quem era aquele erudito leitor, intenso e apaixonamente curioso?

Era suficientemente interessante para o desafio que me fazia.

2. Nunca poderia partir para a empreitada que me trouxe ao auditório deste escritório sem também partir da minha própria circunstância. Digo empreitada que é substantivo a que costumo recorrer quando, sendo nobre a tarefa, como é o caso, eu tema que ela me possa ultrapassar.

E falei da circunstância, que é a minha, vocacionalmente e profissionalmente jornalista desde há tempos imemoriais e quase sempre ininterruptamente. O tempo e o labor fizeram-me aprimorar o “modus faciendi” como entendo o jornalismo, a vida fez-me decantar as ilusões sobre ele.

É pois ancorada nesse “modo” de agir na comunicação social que aqui estou, que o mesmo é dizer que está aqui a mensageira e a contadora. Podia estar a testemunha, a noticiadora, a escrutinadora, a julgadora, outras formas e fórmulas de entender a profissão. Admito-as a todas, considero ou mesmo admiro alguns dos seus praticantes, mas não são as minhas.

Sou mensageira porque me quero o traço de união entre o que ocorre e quem quer saber o que ocorre; contadora porque aprendi com Virginia Woolf que “nada acontece até ser contado” e quantas vezes não dou comigo a pensar no formidável alcance desta só aparentemente prosaica frase.

3. A mensageira não traz boas notícias.

Presunção de inocência? Já conheceu melhores dias, para dizer o mínimo. Mais........

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