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O dr. António Sousa Homem & família /premium

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22.05.2019

1. Há dias escrevi aqui sobre Nápoles mas não contei tudo. Uma viagem começa sempre antes da partida mas o meu “antes”, em vez de se atardar na obrigatória apreciação dos patrimónios que me esperavam, passou por penosas horas de hesitação: como é que eu iria passar sem notícias do Alto Minho? Sem o dr. António Sousa Homem e as idiossincrasias dos seus? Sem a tia Benedita, matriarca da família, os tios, o gastrónomo e o tocador de oboé, os sobrinhos, a namorada Frízia de um deles, o dr. Paulo… sem, enfim, esse universo minhoto, conservador e recalcitrante que o dr. Homem teve a amabilidade generosa de passar para papel de jornal e depois para livro (“O Crepúsculo em Moledo”, Porto Editora)? E a que nos últimos tempos tanto me afeiçoara e que pura e simplesmente se me tornara indispensável? Sim, como estar em Nápoles sem o Minho? De modo que andei às voltas, levo o livro, melhor deixá-lo, que fazer? Carregar uma mala já de si carregada (é preciso ver que para as mulheres, mesmo para as do MeToo, fazer malas em estações do ano indefinidas onde tanto se pode precisar de umas sandálias como de uma gabardina, é tarefa longuíssima que normalmente acaba mal) e além disso misturar o Alto Minho do dr. António Sousa Homem com os Palácios do ex-Reino das Duas Sicílias, seria boa ideia? Seria, justamente seria: não me imaginava oito dias, oito — uma eternidade — sem aquelas neblinas matinais, as caminhadas pelos pinhais de Moledo, o cheiro a iodo de Afife, os almoços dominicais, o mundo da Tia Benedita, a memória de Dona Ester, a personalidade do tio Alberto, as reflexões (definitivas) de Dona Elaine, governanta e asa protectora do dr. António Sousa Homem, no seu eremitério. Sem eles, em suma.

2. Talvez deva aclarar tudo isto melhor, um leitor, mesmo distraído ou desconfiado, merece todo o respeito. Aclaro: um dia dei comigo a ler uma notícia onde era questão de um prefácio escrito por João Pereira Coutinho para um livro de alguém de quem nunca ouvira o nome – o dr. Sousa Homem, justamente — mas que importância? Não era o prefaciante tão seguro de si a avaliar o verbo alheio e a separar o trigo do joio em páginas impressas (e para só para mencionar esta sua fatia intelectual)?

De modo que fui à “Barata” que é para os meus lados e onde me tratam tão bem e pedi o livro mas o “qual deles?” que obtive como pronta resposta fez-me embaraçadamente tropeçar na minha própria ignorância: como era possível que António Sousa Homem tivesse escrito já três ou quatro livros sem que nunca tivesse ouvido pronunciar o seu nome, lido uma crítica, encontrado alguém, feliz ou infeliz, com a sua literatura? Envergonhadamente constatei que sim: era possível. Com um tom de voz falsamente seguro pedi “o último, naturalmente” e fugi dali para fora. Nessa noite, ao apagar a luz, com um cansaço jubiloso, feito de uma curiosidade que galopava à minha frente, uma surpresa sem nome e um........

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