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A “familiar de referência” /premium

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20.03.2019

1. Nem sequer houve pré-aviso, a vida mudou de cor num minuto, vesti outra pele, passei a chamar-me “familiar de referência.” Aprendi a circular em infindáveis corredores, a não confundir esquinas e acertar nos elevadores. A lidar com aquele súbito desconcerto, tateando a vida em vez de a viver. Tateando a abissal diferença entre o conhecido e o vivido e era implacável a diferença entre uma coisa e outra. Tudo aquilo era agora comigo.

2. E, subitamente, lembrei-me: foi há quase três anos, em Setembro, estava uma manhã azul e radiosa, íamos a caminho do Douro. Aquela coisa da felicidade. Nisto toca o telefone, era o filho de Londres, tão cedo?, pensei, ”houve uma chatice no nosso metro de Parsons Greens, havia uma bomba mas está tudo bem, o Luís foi no metro antes, já está na escola, está tudo bem…”.

Tudo bem? Garganta seca, a voz que não saía, o trovão da descoberta: seria aquilo o pânico?

“Não podemos sair de casa, as ruas estão fechadas, num segundo ficámos rodeados de polícias, ninguém entra, nem sai”. De repente era o “vivido”, em vez do “sabido”, a notícia não viera de um écran televisivo mas da voz falsamente tranquila de um filho a dizer-nos que o seu filho apanhara o metro anterior. Com a mesma velocidade com que a polícia inglesa bloqueara meia dúzia de ruas londrinas, a nossa condição de longínquos espectadores do terrorismo nos telejornais, transformara-se em “parte” implicada: prosaicamente a caminho do Douro, numa manhã já não doce, prováramos a diferença.

3. Desta vez, no Hospital de Santa Maria, também. Primeiro foi o “de repente” com que tudo sempre começa: a angústia pelo telefone, o voo para casa, a cabeça a andar à roda, “tudo menos ir para um hospital privado”, a chegada do INEM. Um clássico, só que meu, pessoal, intransmissível. Quantas vezes ouvira enaltecer o INEM, a competência do Serviço Nacional de Saúde, a excelência clínica dos hospitais públicos? Muitas, mas de longe, à distância. Idas esporádicas a Santa Maria, algumas à Urgência. O trivial, nunca uma emergência. Agora era.........

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