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À atenção da direita /premium

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05.06.2019

1. Há dias almoçando com um amigo que há muito não via, apercebi-me com surpresa de uma preocupação de que não o julgava capaz (sabendo-o alguém ocupado a tratar de coisas sérias) e que era a “direita do Observador”: podia eu explicar melhor? Espantei-me que ele não se espantasse mais com o deplorável estado de saúde das direitas em Portugal, mas não ia infantilizá-lo lembrando que nenhum país normalmente constituído onde vigore um regime democrático sobrevive só com metade da democracia a funcionar. Não havia assim muito para explicar. À noite – nunca há coincidências – encontro outro um amigo muito próximo que quase se enfurece com a “radicalidade” do Observador. Resolvi levar aquilo a sério e espremi o tema: fiz perguntas, pedi esclarecimentos, revi a matéria, sugeri exemplos muito, muito, concretos: saiu pouco sumo. Era escassa a uva. Mas farta a parra, sob a forma de indignações postiças, exageros intencionais, alguma dosesinha de má fé. Clichés.

Mas isso foi o menos. O mais foi ter percebido, e logo ao almoço e ao jantar do mesmo dia, que gente adulta e séria ainda admite com estranheza — ou deveria dizer com um tédio bem pensante? — que as direitas tenham voz e se exprimam no espaço público e não apenas no reduto partidário, onde são de “centro”. E que ao fim de quase quarenta anos, os mesmos olhem com despropositada “preocupação” um meio comunicacional que representa como pode quem, justamente — muito pouco e muito intermitentemente –. se sentiu representado, durante anos e anos, na comunicação social. Ou seja, falo do óbvio. Tão prosaicamente banal é o que digo que seria até levada a evocar La Palisse se os meus interlocutores — o do almoço e o do jantar — tivessem humor mas depois lembrei-me que talvez não pudessem tê-lo: então e o ar do tempo? O ar do tempo nunca os convidaria para a maçada de terem de destoar daquilo que as tais quatro décadas semearam no país: uma espécie de transfiguração das direitas, etiquetadas, desde o alvor da democracia, como “centro” ou quando muito “centro-direita”; e tudo o que levanta a cabeça para fora deste consentido perímetro é expeditamente radical, fascista, suspeito, extremista (e quem sabe, na melhor das hipóteses, serão mesmo estagiários dos Steve Banon deste mundo........

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