O tempo e a política |
A tempestade Kristin atingiu Lisboa a partir do Atlântico Norte. No mesmo instante instalou-se a retórica “climática”. Tornou-se uma garantia de enredo previsível, quase um consolo – não fosse a gravidade dos danos. Como um realejo movido a fenómenos extremos, os canais noticiosos convidam políticos para comentar o tempo. A interpretação “climática” é invariável.
Na terça-feira, 3 de Março, a Assembleia Municipal de Lisboa parecia um gigantesco estúdio de televisão onde o Bloco de Esquerda pontificava. Com base numa moção inscrita na Ordem dos Trabalhos, o BE pretendia decretar a origem e a forma desta tempestade em linguagem meteorológica – e tirar daí as esperadas conclusões. Essas já vinham embrulhadas na língua de pau típica da seita, com emergências, alterações, transições, prudências e prazos catastróficos – e uma bateria de políticas prontas a enfiar na garganta dos munícipes. O Bloco trazia de casa a tese “climática”. Só precisava que a Assembleia comprovasse a tempestade.
O mundo político transformou-se nisto. Ganhou este vício. Um mecanismo automático assente no uso político da meteorologia. Qualquer fenómeno atmosférico é hoje um risco para quem tem juízo, por saber que, junto com os bombeiros e a protecção civil, vão chegar brigadas de peritos que transformam tudo em prova da agenda “climática”. Misturando factos com retórica alarmista, essas brigadas procedem metodicamente à instrumentalização de tragédias em nome de objectivos políticos disfarçados de solidariedade. Sobre a imprevisibilidade do clima pesa o desconforto desta certeza: por motivos “climáticos”, as brigadas exigem mais impostos, mais subsídios “verdes”, mais regulamentação e mais poder centralizado. À custa da limitação de liberdades individuais e da destruição da indústria europeia.
A sensação de que as tempestades estão a piorar decorre sobretudo de uma melhor cobertura mediática e de movimentos demográficos que, nas últimas décadas, trouxeram massas de população para as cidades costeiras. A formação de aglomerados urbanos na faixa litoral multiplicou prejuízos materiais e vítimas pessoais; a vontade activista de usar oscilações atmosféricas como prova e pretexto impediu que o debate público olhasse para outras explicações. Os canais televisivos transmitem as platitudes conhecidas nas redacções. No plano municipal, os comportamentos repetem o exemplo da República e da União Europeia – a meteorologia descreve o tempo; o ar do tempo ensinou a política a usá-lo.
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