Legitimar a guerra e a paz através da figura de Maria

Apropriação nacionalista da figura de Maria 

Entre os múltiplos exemplos acerca das inexoráveis antinomias relativas à forma como as comunidades vivem a religião que professam, encontra-se a forma como, nalguns casos, a Mãe do Deus dos cristãos foi venerada, não raras vezes cultuada a partir de ideologias que, à luz da Teologia, se afastam do que preconiza a mensagem evangélica, situação também observável em diferentes momentos da História de Portugal.

Tomada desde a Idade Média como figura tutelar das comunidades — a ela se dedicando territórios e igrejas, entre as quais, as catedrais —, Maria foi associada a conjunturas históricas que a tornaram especial protetora de um Portugal que se sentiu eleito, lendo-se como predileto e chegando mesmo a cantar, jurando amor perpétuo: «Ó glória da nossa terra que tens salvado mil vezes». Embora já tardiamente se possa documentar, transpira entre os fiéis portugueses que Portugal é Terra de Santa Maria, epíteto não raramente entendido como lugar de privilégio em detrimento de outras geografias políticas, como o mesmo canto, de cronologia oitocentista, afirma: «salve, nobre padroeira do povo teu protegido; entre todos, escolhido para povo do Senhor». Esta loa, que durante as conjunturas históricas do século XIX, mas também do século XX, fora ganhando fulgor também em razão do momento ideológico das diferentes épocas, esbarra na reflexão teológica que não admite à Mãe de Deus ter, em prejuízo de outros, povos escolhidos, a não ser que se tome aquela frase como referente à simbólica do antigo povo de Israel, o eleito do Deus veterotestamentário e embrião do povo pascal que todos os povos virá a convocar.

Com efeito, se a Teologia atual não consentirá essa predileção de Maria por uma parte da humanidade que se lê a partir de uma delimitação geográfica e/ou político-institucional, e menos ainda que a mesma Virgem seja instada a rebelar-se contra o inimigo, a práxis cultual não tem problema em fazê-la especial protetora e defensora dessa comunidade contra o estrangeiro. Embora também outras nações a tenham como especial protetora e........

© Observador