O escândalo de um Deus “imperfeito”

Há frases que parecem blasfémia e são, afinal, revelação. Dizer que Jesus era “cheio de defeitos” é uma delas. Não defeitos morais, não falhas de carácter, mas a fragilidade escolhida de quem recusou esconder-Se atrás da omnipotência. O verdadeiro escândalo cristão não é que Deus Se tenha feito homem. É que, feito homem, não tenha fugido à dor, ao medo, ao cansaço, à lágrima. A fé começa aqui: num Deus que não teve vergonha da nossa condição.

Inventámos um Deus perfeito para não termos de O encontrar na vida real. Liso, distante, inatingível. Um Deus sem feridas, para não termos de tocar as nossas. Mas o Deus do Evangelho tem mãos marcadas, voz cansada, joelhos dobrados no pó. A perfeição que Lhe atribuímos afastou-O. A humanidade que Ele assumiu tornou-O próximo. Deus não desceu à terra para nos impressionar. Desceu para nos acompanhar.

Jesus não foi invencível. Chorou diante do túmulo do amigo. Suou sangue na noite do medo. Gritou o abandono na cruz. Conheceu a solidão, a incompreensão, o fracasso aparente. E foi aí, onde tudo parecia quebrar, que Deus Se revelou inteiro. A força de Cristo não foi vencer a fragilidade. Foi habitá-la até ao fim.

O primeiro “defeito” de Jesus foi amar sem medida. Num mundo que negocia afectos, Ele ofereceu-Se sem garantias. Tocou o impuro. Sentou-Se à mesa com........

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