Espanha investe em Portugal, Portugal não investe em Espanha |
Há 50 anos que vivo entre Portugal e Espanha. Nasci em Espanha, mas escolhi Portugal a qualquer custo. Ao longo destas cinco décadas, observei um fenómeno económico que me intriga e preocupa profundamente: as empresas espanholas investem agressivamente em Portugal, expandem-se rapidamente, geram lucros substanciais e repatriam o dinheiro para Madrid. As empresas portuguesas, por sua vez, hesitam em expandir-se em Espanha, deparam-se com barreiras sistemáticas e, frequentemente, acabam por abandonar o projeto.
Quero ser claro desde o início: não se trata de uma questão de falta de competência portuguesa. Os portugueses são tão capazes, tão inteligentes e tão empreendedores quanto os espanhóis. O problema não está nas pessoas. O problema é estrutural.
Os números confirmam esta perceção de forma esmagadora. Espanha investiu 30,7 mil milhões de euros em Portugal até 2024. Repito: trinta vírgula sete mil milhões. Enquanto isso, Portugal investiu uma fração muito menor em Espanha. A proporção entre os dois é de cerca de 8 para 1. Isto não é uma tendência. É um desequilíbrio estrutural.
Começo pelos números que revelam a magnitude deste desequilíbrio.
Existem cerca de 2.400 empresas espanholas em Portugal com investimentos estáveis e operações contínuas. Isto significa que não se trata de visitas ocasionais, mas sim de empresas com escritórios registados, funcionários, infraestruturas e uma presença duradoura. Portugal tem registadas cerca de 6.289 empresas exportadoras para Espanha, mas a presença física consolidada é extremamente limitada. Espanha tem dez vezes mais operações estruturadas em Portugal do que o inverso.
No que diz respeito ao comércio bilateral, Portugal exporta para Espanha 5,35 mil milhões de euros. Este valor representa 26,8% de todas as exportações portuguesas. Em suma, mais de um quarto de tudo o que Portugal vende ao mundo é destinado a Espanha. Espanha é o nosso cliente número um, sem margem para dúvidas. No entanto, Portugal importa de Espanha entre 16 a 17 mil milhões de euros, o que representa 30% ou mais de todas as importações portuguesas. Em suma, Portugal compra muito mais a Espanha do que Espanha compra a Portugal.
No setor bancário, este número é particularmente revelador. A partir do primeiro trimestre de 2025, o banco espanhol BBVA controla 23% de toda a quota de mercado de crédito português. Isto significa que, quando uma família portuguesa solicita um crédito hipotecário, há uma probabilidade de um em quatro de o banco escolhido ser o BBVA. Quando uma empresa portuguesa procura uma linha de crédito, há uma probabilidade significativa de a decisão ser do BBVA. Além disso, o BBVA reporta para Madrid, não para Lisboa. As decisões financeiras que moldam a economia portuguesa são frequentemente tomadas por conselheiros em escritórios espanhóis e não por autoridades portuguesas.
Um exemplo concreto torna isto ainda mais tangível. A Mercadona é uma cadeia de supermercados espanhola. Esta única empresa do setor da mercearia tem um volume de investimento acumulado de aproximadamente um mil milhão de euros em Portugal. Tem entre 350 e 400 lojas espalhadas pelo país. Em 2024, a Mercadona obteve um lucro de 100 a 150 milhões de euros em Portugal, o qual foi integralmente repatriado para Espanha. Sozinha, uma cadeia de supermercados espanhola representa 3,3% de todo o investimento direto estrangeiro recebido por Portugal desde 1985. Isto é, para uma única cadeia de retalho, um valor extremamente significativo.
Este desequilíbrio não é acidental. Não resulta do azar ou de circunstâncias aleatórias. Tem raízes profundas no modo como os dois países funcionam, em como as pessoas pensam, e em como as organizações estão estruturadas.
Após um exame rigoroso de dados, de estudos académicos e de cinco décadas de observação quotidiana entre dois países, identifiquei quatro fatores estruturais que explicam por que razão Espanha prospera em Portugal, enquanto Portugal não consegue reciprocidade. Estes fatores não são óbvios à primeira vista, mas revelam-se ao observador atento e ao analista paciente.
Este é o fator mais subtil, mas possivelmente o mais importante. Trata-se de uma diferença de mentalidades tão profunda que moldou séculos de história ibérica.
Espanha olha para Portugal com indiferença. Não com desprezo, mas sim com indiferença. Nos currículos escolares espanhóis, Portugal passa despercebido. Os meios de comunicação espanhóis têm pouca informação sobre Portugal. Ainda que exista, essa presença é mínima, o que indica que Portugal não desperta curiosidade ou interesse. Para um espanhol Portugal é “aquele país lá no cantinho”.
Portugal olha para Espanha com um tipo de receio particular. Nos currículos escolares portugueses, a Batalha de Aljubarrota não é ensinada como um evento histórico, mas sim como prova viva de independência e de........