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Um Brasil entalado

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O bolsonarismo parecia um movimento ultrapassado com a condenação do Jair Bolsonaro em 2025 por tentativa de golpe de Estado. Mas a vitória do seu filho Flávio Bolsonaro no passado domingo mostrou o contrário. A história joga agora a favor de Bolsonaro (nunca um candidato vencedor na primeira volta perdeu a presidência desde o fim da ditadura), mas Lula é um veterano da política brasileira e já se mostrou capaz de renascer das cinzas, pelo que a segunda volta está em aberto. E, importantes como são as dinâmicas internas, o resultado terá repercussões que se estendem muito além das fronteiras brasileiras. Depois de mais de 20 anos de expansão da influência chinesa na América Latina, a administração Trump tem sido, porventura, a mais interventiva na região desde os anos 80, colocando a doutrina Monroe (ou “Donroe”, como é conhecida a adaptação de Trump) no centro da sua estratégia geopolítica. À medida que as visões concorrentes de Washington e Pequim se sobrepõem cada vez mais geograficamente, países historicamente não alinhados como o Brasil tornar-se-ão um polo da disputa global pelo poder. A segunda volta que se aproxima ganha, por isso, ainda mais relevância, não só porque traçará o destino do país, mas porque o próprio destino do Brasil é cada vez mais indissociável do destino da ordem global.

A segunda administração Trump tem estado mais do que disposta a usar a coerção militar e económica para impor a sua visão para aquilo que considera o backyard dos EUA. No início de janeiro, as forças armadas norte-americanas depuseram Nicolás Maduro e Washington encontra-se desde então em negociações com Delcy Rodríguez, ela própria membro do regime de Maduro, mas mais recetiva às exigências americanas. Este sucesso na Venezuela pode até ter contribuído para a decisão de Trump de lançar uma guerra contra o Irão, presumivelmente na esperança de alcançar uma vitória igualmente rápida e fulminante. Quando isso não se concretizou (de facto, a guerra continua e Trump sugeriu que esta poderá só ser resolvida depois das eleições intercalares), Trump voltou parte da sua atenção para o seu hemisfério e impôs um bloqueio a Cuba, na esperança de enfraquecer o regime ao ponto da capitulação. Os ataques militares a embarcações alegadamente ligadas ao narcotráfico nas Caraíbas, cuja legitimidade jurídica é, no mínimo, muito questionável, mostraram igualmente a disponibilidade de Trump para impor a sua agenda America First à região.

Mas não é apenas pela lei da força que as dinâmicas estão a mudar. Desde que Trump iniciou o seu segundo mandato, a América Latina tem vivido uma espécie de onda de direita. Em cerca de 18 meses, sete eleições presidenciais consecutivas na região foram todas ganhas por candidatos de direita ou de extrema-direita. Esta mudança tem sido acompanhada por iniciativas multilaterais (eu sei, surpreendente ver “Trump” e “multilateral” na mesma frase) como o Escudo das Américas, lançado em março deste ano, que configura essencialmente uma coligação de defesa e segurança centrada no combate ao tráfico de droga e ao crime organizado na região.

Ora, pode parecer algo contraintuitivo que esta abordagem America........

© Observador