Trump e o lobo

Na semana passada, Donald Trump ameaçou bombardear o Omã. Segundo Trey Yingst, jornalista da Fox News, o presidente americano terá dito que, se o Omã dificultasse o processo de negociação com o Irão, os EUA iriam “bomb the shit out of them”. Noutra era, uma ameaça desta natureza, proferida pelo presidente americano a um dos seus mais antigos parceiros na região (o Omã foi o primeiro Estado do Golfo a reconhecer os EUA), teria ocupado as primeiras páginas dos jornais globais durante dias. Mas isso pertence a um mundo que parece ter ficado para trás. As declarações de Trump, por mais chocantes que tenham sido, não mereceram mais do que uma menção passageira: para uns, um exemplo do desespero do presidente em resolver a crise com o Irão; para outros, uma demonstração da sua genuína intenção destrutiva; para outros ainda, um claro exemplo da estratégia do Homem Louco ou Mad Man, popularizada por Nixon. No fundo, não houve uma reação generalizada por uma razão simples: ninguém levou a sério. Mas é precisamente a aparente insignificância destas declarações que, paradoxalmente, se revela mais relevante. A falta de reação à ameaça de bombardear um aliado no Golfo é apenas o mais recente exemplo de um fenómeno que, já visível no primeiro mandato de Trump, se tem vindo a agudizar de forma inescapável neste Trump 2.0: a desvalorização da palavra, e, com ela, da autoridade, do presidente americano.

Das várias leituras possíveis para justificar as declarações do líder americano, a do Mad Man é a mais generosa e aquela que merece exame mais sério, por lhe atribuir um método onde outros veem apenas descontrolo. A teoria do Homem Louco não é recente. Na sua base essencial, está já presente em Maquiavel, que no capítulo II do Livro III dos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, invocando Lúcio Júnio Bruto, nos diz que fingir loucura é por vezes uma manobra sábia do governante. De forma muito resumida, esta teoria defende que um líder que aja, ou, pelo menos, que faça transparecer aos seus adversários que é louco (um Mad Man) e capaz de agir de forma irracional tem maior probabilidade de obter concessões das suas contrapartes em negociações. A ameaça implícita de que, a qualquer momento, o Mad Man poderá escalar o conflito de forma irremediável, obriga a que as suas ameaças sejam levadas a sério e que o seu adversário esteja mais disposto a encontrar um compromisso para evitar a catástrofe.

Apesar de antiga, a teoria ganhou relevância particular na Guerra Fria, com o advento das armas nucleares. Uma vez atingida a paridade entre as duas superpotências, essas armas deixaram de valer pelo uso para valerem pela ameaça do uso. Pensou-se, e a história acabou por confirmá-lo, que o facto de as duas potências poderem destruir-se mutuamente num confronto direto tornaria essa possibilidade menos atraente para ambas. E foi precisamente porque as armas nucleares funcionaram como dissuasor não pelo uso, mas pela mera ameaça, que a Mad Man Theory ganhou nova ribalta. Num primeiro momento, poder-se-ia pensar que, com a destruição mútua assegurada, qualquer ameaça feita por americanos ou soviéticos perderia grande parte da sua força negocial. Afinal,........

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