O duelo do Golfo

A recente dissolução do Southern Transitional Council (STC) poderá ser lida apenas como mais um passo no caminho da normalização política no Iémen. Mas esta leitura revela-se simplista e falha em reconhecer as implicações regionais e o verdadeiro impacto geopolítico deste evento.

Porque a dissolução do STC não é uma ocorrência isolada, mas resulta antes do culminar de tensões entre dois países que durante anos, eram tidos como aliados naturais: a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. De facto, ambos os países partilham semelhanças significativas, sendo regimes autoritários pragmáticos, unidos contra o islamismo político e alinhados na contenção do Irão. Contudo, por detrás da cooperação formal, instalou-se uma competição pelo domínio regional, em que Abu Dhabi deixou de aceitar um papel subalterno face a Riade e passou a construir um eixo de influência próprio, frequentemente em choque direto com os interesses sauditas.

Essa rivalidade não se expressa em confrontos diretos, mas através de uma estratégia mais discreta e eficaz. Onde a Arábia Saudita procura previsibilidade e contenção de conflitos, os Emirados exploram a fragmentação como instrumento de projeção de poder através do financiamento de milícias e movimentos separatistas em pontos-chave do Médio Oriente e do Corno de África. E o palco central dessa disputa não se limita ao Golfo: vai da Líbia à Somália, passando pelo Sudão e pelo estreito de Bab al-Mandeb, uma das artérias mais sensíveis do comércio global.

Mas o exemplo mais claro desta tensão encontra-se no Iémen. Nominalmente, o conflito opõe os Houthis, apoiados pelo Irão, contra o Conselho Presidencial, apoiado por uma coligação liderada pelos sauditas e emiratis. Mas a realidade no terreno é mais complexa. O conflito trava-se (ou melhor, travava-se), de facto, entre três atores: os Houthis, as forças governamentais (apoiadas pelos sauditas) e o STC, apoiado pelos Emirados. Apesar de o objetivo oficial ser derrotar os Houthis, o STC e as forças governamentais têm objetivos fundamentalmente........

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