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Enquanto a Europa olha para Ceuta

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04.08.2026

Dezenas de milhares de migrantes atravessaram nos últimos dias de julho a fronteira de Marrocos para Ceuta e a Europa reagiu como reage sempre que o Estreito de Gibraltar lhe traz África à porta: Pedro Sánchez falou em violação da integridade territorial espanhola, Itália suspendeu Schengen e Portugal, fiel a si mesmo, registou os acontecimentos com grande preocupação. A rota ocidental do Mediterrâneo dominou, por isso, os títulos durante esta semana. Mas um pouco mais a leste, na Líbia, o país que mais pesa para os fluxos migratórios para a Europa e para a diversificação energética do continente, atravessa uma das transformações políticas mais significativas dos últimos 15 anos. Uma guerra de blocos rígidos dá lugar a uma geometria de parcerias flexíveis que, pela primeira vez desde a queda de Gaddafi, torna concebível a estabilização e a reunificação do país. Isso importa não só à região, mas à própria Europa, que tem no destino da Líbia uma das chaves da sua segurança energética e migratória, e que faria bem em prestar atenção ao que ali se decide.

Convém recuperar o que está em jogo, porque a divisão líbia tornou-se tão prolongada que se naturalizou. Desde a queda de Gaddafi que o país está partido em dois. O Governo de Unidade Nacional (GUN), reconhecido internacionalmente e liderado por Abdul Hamid Dbeibeh, governa a partir da capital Trípoli, mas o seu controlo não passa da parte mais ocidental do país e assenta na cooperação com as milícias da capital que o sustentam. Dbeibeh deveria ter sido primeiro-ministro interino apenas até às eleições de dezembro de 2021, mas estas foram adiadas e nunca reagendadas, pelo que no cargo interino Dbeibeh permaneceu.

No leste do país governa a Câmara dos Representantes a partir de Tobruk, sustentada pelo Exército Nacional Líbio (ENL) liderado por Khalifa Haftar a partir de Benghazi e cujas forças controlam a faixa costeira oriental e boa parte do interior. Em 2019 e 2020, Haftar tentou tomar o país inteiro numa ofensiva militar que acabou por ser travada às portas de Trípoli pela intervenção turca, com drones, equipamento e homens que salvaram o governo ocidental do colapso.

Esta divisão do país em dois acabou, no entanto, por ser menos prejudicial para os envolvidos do que poderia parecer à primeira vista. É que, na prática, nenhum dos lados precisou de vencer efetivamente para assegurar a manutenção do seu financiamento, uma vez que as exportações petrolíferas dependem dos campos de petróleo situados no território de Haftar, mas passam necessariamente por Trípoli e pela National Oil Corporation. Tanto para Haftar como para Dbeibeh, a manutenção do status quo é a forma que melhor permite a ambos consolidar as suas respetivas bases de poder, sem arriscar a perda de estatuto que um retorno à guerra aberta implicaria. Esta espécie de “partilha” tem sido por isso um dos mais claros obstáculos à reunificação da Líbia. Um Estado unificado traz possivelmente consigo o fim da opacidade que sustenta as fortunas dos dois lados desde 2014, pelo que se revela pouco atrativo para os players nacionais envolvidos.

Mas, para além desta espécie de economia da divisão, foram também os patrocinadores externos de cada lado que lhes garantiram........

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