A sociologia do eleitorado |
Em 1967, Seymour Martin Lipset e Stein Rokkan publicaram um ensaio influente sobre partidos e eleições, onde afirmaram que “os sistemas partidários [europeus] dos anos 1960 reflectem, com poucas excepções, a mesma estrutura de clivagens sociais dos anos 1920”. Hoje, dificilmente alguém defenderia que os sistemas partidários dos anos 2020 ainda espelham as clivagens dos anos 1960.
Apesar da volatilidade eleitoral e dos ciclos políticos, o voto não é um puro acaso. As condições sociais e económicas moldam as experiências de vida, os laços sociais e atitudes. E deixam marcas profundas nas nossas preferências políticas. No imaginário do pós-guerra, o mapa parecia simples: classe e religião organizavam o voto; trabalhadores e classes populares inclinavam-se para a esquerda, proprietários e pequena burguesia para a direita. Era, claro, uma simplificação: sempre houve operários conservadores e burgueses de esquerda. Mas, em média, a associação entre posição social e preferência política era suficientemente forte para fazer da classe o eixo principal da competição partidária.
Para compreender a política de hoje, ajuda conhecer o trabalho de Herbert P. Kitschelt e Philipp Rehm. A sua ideia é simples: já não basta olhar apenas para a classe social, como nas velhas sociedades industriais. Mas também não devemos reduzir tudo ao diploma universitário, uma redução tentadora, mas enganadora. É preciso cruzar as duas coisas: rendimento e escolaridade (educação superior).
Rendimento e escolaridade empurram as preferências políticas em direções diferentes. O rendimento continua ligado ao interesse material: em média, quem tem menos tende a preferir mais proteção social e redistribuição; quem tem mais tende a preferir menos impostos e mais espaço para o mercado. Isso não mudou. E, apesar de todo o ruído da política cultural e de ter perdido peso relativo, a política material continua a pesar muito na hora de votar.
Já a educação superior funciona ao mesmo tempo como marcador socioeconómico em sociedades pós-industriais, mas também como um marcador cultural. Em média, a frequência do ensino superior está associada a um maior contacto com ambientes diversos e internacionalizados, normas mais universalistas e a profissões do conhecimento e dos serviços, que tendem a favorecer atitudes mais progressistas. Pelo contrário, percursos com menos escolaridade, muitas vezes ligados a maior insegurança laboral e menor reconhecimento social (status), tendem a correlacionar-se com posições mais conservadoras e nacionalistas. A política contemporânea complica-se porque estas duas forças........