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Vencidos da vida

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08.06.2019

Malfadado fado, o nosso. Há 200 anos que deambulamos entre as brumas da mediania, que nem vencidos da vida. Faz quase dois séculos, a Revolução Liberal separou irmãos, absolutistas e liberais, e gerou tensões permanentes entre setembristas e cartistas, assim como reiteradas bancarrotas — seis, entre 1828 e 1890, porque não deu tempo para mais. Montou também uma enorme oligarquia que se servia do país. Éramos pobres, ficamos paupérrimos.

A esperança da regeneração do Fontismo, preparada por intelectuais liberais como Alexandre Herculano, dá origem a escolas, pontes e estradas alavancadas em dívida externa, o que culmina, sem surpresas, noutra bancarrota. Este período degenera na inépcia de Hintze Ribeiro e finalmente em João Franco, “o ditador”, que viveu para assistir ao fim da Monarquia Constitucional e à instauração da República, proclamada dos Paços de Lisboa para uns quantos transeuntes mendicantes, para a pequena burguesia, e para os maçons e os carbonários que a montaram. Demorou dois dias para a notícia chegar ao Norte, tamanho era o interesse da populaça combalida em mais uma diatribe importada de França.

A República, a mulher desnuda de espada e bandeira na mão, olha agora para cima, em contraponto à Monarquia, que olhava para baixo, para os seus súbditos, os miseráveis. Porque os novos súbditos poderiam votar mal, a República decidiu que talvez fosse melhor impedir os mais pobres de o fazer, ou não fossem os descabelados votar na restauração. Proíbe e persegue também as ordens religiosas. Liberté, egalité, fraternité — e na versão portuguesa também pauvreté.

Em talvez a melhor análise política desta nova forma de regência, escrevia assim Fernando Pessoa: «O regímen está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima........

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