Hayek e o capitalismo utópico |
1. Poucos autores são tão mal conhecidos e interpretados neste país com o F. von Hayek. De modo geral, atribui-se-lhe a paternidade do neo-liberalismo, o que não deixa de estar certo mas requer algumas precisões. Na realidade, as teses de Hayek distinguem-se bem do liberalismo clássico de A. Smith, E. Burke e J. B. Say. De comum há apenas uma faceta: tal como os liberais clássicos, Hayek não foi apenas um economista. A economia é demasiado importante para que possa ser deixada apenas aos economistas.
Hayek defende o mercado porque faz dele o único instrumento racional da decisão económica, como toda a gente sabe. Mas diferentemente dos liberais que o precederam o mercado não é bom por ser o resultado da acção moral e da psicologia individuais, como era para A. Smith, mas sim porque, de modo mais prosaico, é o único meio de fazer transitar a informação económica necessária à decisão. Nenhum poder centralizado pode aceder à inimaginável quantidade de informação necessária para orientar as decisões económicas porque esta está infinitamente dispersa e varia consoante as preferências de cada um e os circunstancialismos históricos e sociais. A informação circula através dos preços. De modo que a única solução é deixar funcionar livremente a decisão individual industriada pelos preços, sem coacção e empecilhos externos. O mercado, por sua vez, não é uma entidade abstracta mas sim um processo complexo de adaptação da liberdade humana. Resulta da enorme acumulação de conhecimentos e de experiência humana. O mercado não é um a priori mas sim o complexo resultado a posteriori da nossa experiência e conhecimentos em ordem a melhorar racionalmente as nossas decisões de comprar e investir. É assim o único instrumento racional de decisão económica. Por sua vez, a sociedade é a interacção social ou seja, o conjunto ordenado de actividades resultante da observância das regras institucionais do mercado. Observadas estas, tudo funciona bem e o mercado acabará por tudo corrigir e melhorar.
2.Nestas condições, a intervenção dos poderes públicos no funcionamento do mercado só estorva. A intervenção estatal impossibilita o conhecimento de todas as informações que orientam as decisões de comprar e investir. A opção política boicota a circulação da informação pois que substitui a decisão racional que acompanha a circulação daquela e daí o desperdício económico e........