Hannah Arendt, depressa
1Sou um antigo admirador de Hannah Arendt. A suas teses sobre o totalitarismo são magistrais. Não dá tréguas ao comunismo nem ao fascismo, equiparando-os até, embora com diferenças específicas, enquanto regimes totalitários. É seguramente por isso que a esquerda nacional que a conhece, e que é quase nenhuma, não gosta nada dela.
Arendt foi uma mulher independente que nunca se preocupou em agradar a todos nem a ninguém em especial. Os seus escritos sobre o julgamento do facínora Eichmann, principal executor do holocausto, desagradaram profundamente à comunidade judaica de Nova York, onde ela vivia, porque esperava dela, mais a mais judia e paga por um jornal americano para ir assistir ao julgamento em Jerusalém, que lhe chamasse os nomes mais feios, tais como homicida, desumano, canibal, eu sei lá, e que pintasse dele um retrato demoníaco, qual novo cavaleiro do Apocalipse. Mas não foi isso que sucedeu.
2Efectivamente, Arendt foi muito mais fundo, mas poucos a compreenderam. Lançou o conceito espantoso de «banalidade do mal». Em que consiste isto? Em demonstrar que os regimes totalitários como o fascismo e o comunismo conseguem acabar com a faculdade de pensar ou seja, de fazer um juízo crítico de avaliação das coisas assim transformando os cidadãos numa espécie de rebanho acéfalo e incapaz de reagir. É este afinal o mal do totalitarismo que já Alfred Jarry tinha entrevisto na sua magnífica peça Ubu Roi e sem esquecer o grande Alexis, visconde de Tocqueville, embora noutro contexto completamente diferente e, se quisermos recuar, já estava descrito pelo quinhentista Étienne de La Boétie no seu magnífico Discurso sobre a Servidão Voluntária.
O mal dos totalitarismos não está só no crime organizado que redundou nos gulags e no holocausto. Está também na redução a nada do cidadão a eles sujeito, a ponto de deixar de pensar por si próprio e de, ao serviço do Estado, ser capaz das piores atrocidades com a satisfação do dever cumprido. O cidadão é transformado no burocrata ou, pelo menos, no cúmplice do terror. A este propósito escrevi em tempos um prefácio ao depoimento do embaixador alemão em Lisboa durante a segunda Grande Guerra, o barão von Hoyningen-Huenne, depoimento este que espero seja um dia publicado, onde trato da questão da culpa colectiva do povo germânico contemporâneo do holocausto.
O mal fica assim banalizado. Retira ao seu autor qualquer sentimento de culpa e transforma o horror no dever. Foi o caso exemplar de Eichmann que parecia indiferente ao demoníaco sofrimento humano que provocou e se mostrava até orgulhoso da sua eficiência e zelo na execução das........
