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Quem tem medo do Inverno Demográfico?

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08.05.2025

A promessa de Donald Trump de um “baby boom” pode, à primeira vista, parecer um inócuo devaneio nostálgico. Numa sociedade envelhecida, preocupada com a estagnação económica e a fragmentação cultural, mais bebés soam como uma solução quase intuitiva. No entanto, o movimento pró-natalista que tem vindo a ganhar força nos círculos conservadores está longe de ser um mero apelo a berços e fraldas.

Com os Republicanos na Casa Branca, o plano-mestre para uma reconfiguração radical do Estado Americano (Projecto 2025) já começou a sair do papel, exigindo um escrutínio mais atento. Sob a aparência de celebração da vida, esconde-se uma tentativa calculada de o Estado retomar o controlo sobre a reprodução, tratando a fertilidade não como uma escolha privada, mas como um instrumento de destino nacional. Será este mais um padrão recorrente da humanidade que estaremos condenados a repetir?

As raízes históricas do pró-natalismo moderno estão longe de ser neutras ou benévolas. No final do século XIX, a teoria da evolução de Charles Darwin foi rapidamente transfigurada numa doutrina social, popularizada como a “sobrevivência do mais forte”. Aplicada à humanidade, fomentou a crença de que raças e civilizações competiam numa luta pela supremacia. À medida que os impérios europeus se expandiam, essa lógica servia de justificação para conquistas e genocídios, apresentando o desaparecimento dos povos indígenas e a morte de não-europeus não como tragédias, mas como manifestações da ordem natural. O darwinismo social forneceu aos impérios uma fuga moral conveniente.

Foi neste contexto que o pró-natalismo se enraizou na Europa, sobretudo em França. Nunca foi apenas uma questão de bebés. Após a derrota na Guerra Franco-Prussiana de 1870–71, as elites francesas entraram em pânico perante a vantagem demográfica alemã. A queda da natalidade foi encarada não como uma tendência passageira, mas como uma emergência nacional. O receio de que uma população em declínio levasse à decadência geopolítica impulsionou uma série de políticas públicas destinadas a........

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