Depressão resistente. Mais esperança, menos complexidade

Por deformação profissional, confio nas estatísticas — e elas dizem-nos que a depressão rouba anos de vida com qualidade e encurta horizontes. Mas, mais do que números, vejo as pessoas que preenchem estes números. Não é raro chegar-me alguém à consulta em busca de uma segunda opinião, depois de “vários tratamentos” falhados, dizendo “a minha depressão que não responde a nada”. Às vezes há uma história familiar que sugere uma doença mental grave com raízes hereditárias. Muitas outras (mais) vezes encontro vidas atravessadas por stress no trabalho, conflitos em casa, perdas recentes ou marcas de um trauma antigo. Muda a origem, repete-se o sofrimento.

Quase todos me falam das mesmas dificuldades no caminho: a concentração que foge, a memória que falha, a energia que desaparece. E, sobretudo, como lhes muda a forma de estar no mundo e lhes retira o sabor do mundo. No consultório, descrevem-me as ruas que antes percorriam e que agora parecem intransponíveis, um tempo colado ao passado e sem futuro, pessoas queridas que já não as tocam, um corpo pesado “como numa gripe” sem febre nem tosse. A depressão não é “só” mais tristeza do que aquela que habitualmente vivemos: é uma perturbação profunda da nossa ligação ao real. As tarefas de sempre tornam-se penosos esforços de alpinismo, a vergonha e a culpa esmagadoras alimentam o isolamento e as conversas, até mesmo as palavras, encolhem até ao........

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