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A Glória: como lidamos com a tragédia?

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06.09.2025

A tragédia é um abismo que nos toma os olhos de assalto, fazemos por os manter abertos enquanto ela acontece. Parece estranho, mas conseguimos explicá-lo psicologicamente — é que queremos estar a salvo, e a nossa vida depende de uma procura desesperada por formas de nos mantermos assim, seguros, salvos, intactos. A tragédia, mesmo quando não nos toca a nós, mexe com a nossa capacidade de nos mantermos intactos. Os mecanismos psicológicos entram em ação, a nossa confiança no mundo fragmenta-se, e o que acontece aos outros pode sempre acontecer-nos a nós. Quem sabe se não esteve quase para nos acontecer, quem sabe se não há um momento assim à nossa espera.

As tragédias existem desde que existimos nós, as pessoas que as temem. Mas a tragédia nem sempre viajou tão depressa, nem sempre se amplificou com tanta grandiosidade, nem sempre teve o protagonismo que hoje somos capazes de lhe dar. Hoje, as tragédias têm um palco eterno, são capazes de nos entrar pela casa e por lá permanecer horas a fio. Já lá vão muitas décadas de um mundo com dificuldade em desligar-se de si próprio. Eu e a minha geração não conhecemos um mundo que não seja assim. Nascemos num mundo que não se desconeta. A televisão já não tem jornais só a horas específicas, já não é preciso esperar pelo dia seguinte para saber quantos mais mortos houve. Já não há pausas no mundo, há uma linha infinita que dura e perdura. Se quisermos, a........

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