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Patriotismo e Educação

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Quando tive o meu segundo filho, fiquei assolada de dúvidas e críticas internas. Até aí, tinha-me sentido boa mãe, pensava que corria bem o desenvolvimento da minha filha e que eu estava extremamente capacitada para a criar. Quando a minha filha acordou o irmão recém-nascido de propósito, nasceu um monstro em mim. Quando nasceu o meu terceiro, estava num poço de achar que tudo corria mal e que eu era péssima mãe. Encontrei um livro chamado Desperate da autora Sally Clarkson, que me ajudou a perceber que esses pensamentos negativos não correspondiam à verdade. Estava a dar o meu melhor e eu era a pessoa mais capacitada para criar os meus filhos.

Cresci nos Estados Unidos até aos 18 anos e sempre tive uma experiência extremamente positiva escolar e em atividades. Recebíamos prémios por tudo e por nada. No quarto ano, inscrevi-me como “SPUR”: Special People Using Responsible Solutions e sentia-me muito especial no recreio com o meu “clipboard” a prevenir brigas e conflitos entre colegas. No quinto ano, arranjei o meu primeiro trabalho na loja da escola, que vendia materiais escolares. O meu ordenado era o crédito na loja. A escola ensinou-me a ler vorazmente e com gosto, a escrever criativamente e a falar em público. No sétimo ano, escrevia poesia e jornais para os meus colegas e professores lerem. Recebi inúmeros prémios no secundário por participar neste clube ou naquele concurso de debate. E explorava diferentes talentos e interesses, como faziam todos os meus colegas. Sempre me senti confiante nas minhas competências.

A primeira vez que assisti a uma reunião de direção de turma como professora em 2009, fiquei chocada. Vai-se de aluno em aluno e cada professor tem a sua vez para apontar defeitos e criticá-lo. Parecia um círculo de professores com o aluno imaginário no meio e os professores a atirarem pedras. O aluno é preguiçoso? E os professores não têm problemas iguais ou piores? Alguns lutam com obesidade, outros traem os esposos. Quase 20 anos depois e agora com filhos meus, continuo a achar as reuniões de direção de turma completamente inúteis. A minha mãe deu aulas durante 25 anos nos Estados Unidos e lá não existem esse tipo de reuniões. Cada professor dá a sua nota, objetivamente e baseada em testes, projetos e números. Não se põe a opinar se o aluno é falador ou tímido, se parece esforçar-se ou se tem que trabalhar mais. As reuniões de professores com pais, também a meu ver inúteis, consistem em sublinhar e falar sobre os problemas e defeitos dos alunos. Portugal tem um dos níveis mais altos de alunos em ensino privado. Mesmo assim, muitos são mandados embora dos colégios por mau comportamento ou aproveitamento, inúmeros estão medicados e aposto que a maioria deles está desmotivada.

Os pais geralmente saem das reuniões a sentirem-se também tristes e mal pelos problemas dos filhos. Querem arranjar soluções para o filho se inntegrar melhor no sistema escolar. Diz GK Chesterton no seu livro What’s Wrong With the World, numa passagem famosa :

“Aquela menina de cabelos ruivos dourados, que acabei de ver passar aos saltinhos em frente à minha casa, não será esgalhada, aleijada ou alterada; seu cabelo não será cortado curto como o de um condenado; não, todos os reinos da Terra serão revirados e mutilados para se adequarem a ela. Ela é a imagem humana e sagrada; ao seu redor, o tecido social oscilará, se romperá e ruirá; os pilares da sociedade serão abalados, e os tetos das eras desabarão, e nenhum fio de cabelo de sua cabeça será tocado.”

Os sistemas estão para as pessoas e não vice -versa. O problema está na razão pela qual está a apanhar piolhos e não nos cabelos compridos.

Como descobri com o meu terceiro filho, os pais deviam de ser os primeiros a apoiar os  filhos e a acreditar no seu potencial, contra todas as críticas internas e externas. Depois, os professores. As nossas palavras têm poder. Se dissermos que ele é mal comportado e tem este problema, isso aumenta o problema. Já devem ter ouvido muitas histórias de figuras históricas que não se encaixavam no sistema escolar, mas tiveram um pai ou professor ou adulto que acreditou nele e isso mudou o percurso da sua vida. Thomas Edison, por exemplo.

Os americanos acreditam que conseguem e talvez isso esteja relacionado com eles conseguirem mesmo. Há muito patriotismo nos Estados Unidos, como também há em Espanha, e estou convencida de que isso impulsiona a economia e a produtividade. Como disse também Chesterton, “Os homens não amaram Roma porque ela era grandiosa. Ela era grandiosa porque a amaram.”

Os portugueses geralmente não gostam  do seu país, da sua história, da sua música, dos seus filmes, dos seus políticos, que curiosamente eles próprios escolhem. Geralmente não se sentem capazes, criativos, proativos. É uma nação que se sente desmoralizada, desanimada, incapacitada.

Não acreditam em si próprios, talvez porque não tiveram essa educação em que alguém acreditou primeiro neles. Não acreditam no país. Mas não guardam essa negatividade para si próprios. Querem apontar os defeitos e dizer que os outros não conseguem: os alunos, os colegas de trabalho, os esposos, os filhos. Esse projeto nunca mais funcionará. Esse trabalho não dará. Essa pessoa tem “problemas”. (Leia-se: eu não tenho.)

Quem critica muito facilmente os empreendimentos dos outros é porque lhe falta coragem para embarcar no seu. O objetivo da vida não é ter sucesso em todos os nossos empreendimentos. Os nossos sucessos nem durarão a nossa geração, quanto mais no tempo. Winston Churchill disse que o sucesso é ir de falhanço em falhanço com o mesmo entusiasmo. O objetivo da vida é, sim, sentir-se amado e apoiado. Que alguém acredita em ti. E depois transbordar e saber amar e apoiar. Edificação mútua. Isso é que faz crescer, tanto a pessoa como o país.

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