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Entre Burros e Elefantes

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O burro e o elefante, para além de outros atributos bem mais relevantes, simbolizam de forma quase caricatural a dicotomia da política americana. Enquanto símbolos, refletem história acumulada, valores intrínsecos, ideológicos e partidários, promovem a identidade coletiva e resumem o “Ethos” de cada grupo. São metáforas que legitimam o poder, normalizam ideologias, mobilizam prosélitos e, para cérebros mais ideológicos, são uma forma eficaz de descrever com simplicidade narrativas mais rebuscadas. Na política americana, mais do que meros emblemas de partidos, o “burro” e o “elefante” representam formas distintas e incompatíveis de interpretação do mundo, da sociedade e, mais recentemente, de uma certa forma de exercício do poder. Este pensamento binário, profundamente enraizado na cultura política, ajuda a compreender a sua dinâmica interna, mas é um modelo válido apenas para essa geografia e que dificilmente é transposto para outras realidades políticas.

Noutras coordenadas, especialmente numa Europa de espectro político fragmentado em facções e nichos de interesses, a realidade local não é dicotómica e pulveriza-se habitualmente numa palete multicolorida onde a divisão clássica entre esquerda e direita há muito que deixou de fazer sentido.

Não podendo ser usada a habitual leitura através do clássico rótulo ideológico, podemos interpretar esse espaço político multipartidário como um lugar onde as “tensões” se distribuem ao longo de eixos entendidos, não como polos binários, mas como gradientes de variação ponderada.

Nesta perspetiva, identificam-se habitualmente dois eixos aos quais devo acrescentar um terceiro. O primeiro destes é o eixo social. Um eixo que opõe não apenas conservadores a progressistas, mas que reflete diferentes ritmos e intensidades de mudança. De um lado situam-se as visões que privilegiam a preservação da tradição, da hierarquia e das normas herdadas, e do outro, uma perspetiva da sociedade em transformação permanente e sempre aberta à redefinição de valores, identidades e direitos.

O segundo eixo clássico é o económico. Este traz-nos uma perspetiva tradicionalmente reduzida às posições antagónicas entre um Estado forte, (neo)mercantilista ou socialista, versus outra que contempla apenas a regulação por leis do mercado. Esta dimensão, tal como a anterior, não tem uma formulação binária, havendo entre os “afélios” – estatismo absoluto e um laissez-faire igualmente dogmático – múltiplas conceções de regulação, redistribuição, proteção social e liberdade económica.

O terceiro eixo, o elemento de decisão política, é um “peso” frequentemente negligenciado, mas absolutamente central nos dias de hoje. Trata-se do exercício político-institucional, um vetor que separa regimes democráticos de outras formas de regência de cariz autocrático, totalitário ou ditatorial. Mais do que um contraste abstrato entre regimes, neste domínio medimos o compromisso com princípios de pluralismo, separação de poderes e respeito por instituições, liberdade de imprensa e alternância no poder. Muitos recusam a incluir este parâmetro por considerarem que o apego a valores democráticos é algo inquestionável. Contudo, ao “olharem” os “descrentes da democracia” como povo “aberrante”, incorrem eles mesmos em igual enviesamento ideológico, ainda que de polo oposto.

Quando comparamos um sistema político binário com um outro multipartidário, o primeiro, o binário, como o americano, tem a vantagem de acomodar um vasto leque de graduações sem que o eleitor ou cidadão fique obrigado a metamorfosear-se num híbrido irreconhecível. É neste quadro que a política americana se torna particularmente legível. O seu sistema bipartidário força uma........

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