Cidadania Fóssil

Há países onde o petróleo corre do subsolo. Em Portugal escorre sobretudo do bolso do contribuinte, de onde brota numa recorrente “sangria fiscal”. Cada vez que um anónimo encosta o carro à bomba de combustível, pratica nesse ato um curioso ritual. Introduz a mangueira no depósito e simultaneamente abre uma veia financeira que alimenta o “organismo” do Estado, mas também toda a microbiota que dele faz serventia.

No final, o contribuinte, ou mais adequadamente, “o pecador fóssil”, completa a expiação que regularmente pratica num automatismo bovino e dirige-se ao “confessionário”, onde um meirinho de garridos “paramentos” lhe anuncia o caminho da redenção. E obedece! Entrega um pequeno cartão onde proficientemente acumulou todas as “penitências” que agora tem disponíveis para a remissão dos pecados fósseis.

Há, porém, neste ritual algo ainda mais perverso. Se for “pecador” fóssil frequente, se “pecar” com regularidade, ou possuir a gula dos motores de maior potência, o “pecado” não funciona num cumulativo, mas com descontos e atenuantes em que, quanto mais “peca”, menor é o custo unitário da redenção.

E nós, os “pecadores fósseis” gostamos disto! Semanalmente cumprimos a devoção, acumulamos os pontos de pecador frequente que usamos em pecados futuros ou para adquirir a caneca dos nossos sonhos. Ficamos felizes! Pagamos e expiamos, mas não abandonamos a “sacristia” sem “um cafezinho” a que damos um “glamour” particular exigindo-o com eloquente adjetivação – curto, cheio, sem café, descafeinado, sem ponta, com ponta, só com ponta, frio, quente, ou antes pelo contrário!

Ah! E já me esquecia das duas raspadinhas e recargas para o “chouriço” metálico que saborosamente chupamos – pelo lado que se chupam os “chouriços metálicos”. E o fazemos prazenteiramente enquanto exalamos um vapor de orgulho, satisfação e pertença a um novo “mundo ecológico”.

Este ritual é tanto mais notável quanto mais discreto. Não há trombetas, não há proclamações, nem sequer grande revolta. Apenas um visor digital que sobe lentamente enquanto o “pecador” e contribuinte contempla, com a resignação filosófica a matemática do litro. Em cada euro pago, mais de metade escorre serenamente para o erário, como se o combustível não fosse apenas um produto energético, mas uma espécie de transfusão periódica destinada a manter viva a vasta e insaciável circulação administrativa e sua ecologia de dependentes.

Portugal sempre teve grande talento para os equilíbrios subtis da civilização e seus dilemas. No século XIX equilibrávamos........

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