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As máquinas não têm amígdala

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31.12.2025

Era uma tarde chuvosa. O vento soprava lá fora com força impiedosa. No ar agitavam-se folhas e ramos, ora bramidos em rugidos bruscos, ora em redemoinhos gigantes que tudo devoravam no caminho.

Na sala, afogadas no conforto, as duas amigas assistiam no sossego do sofá à impetuosidade do temporal, quando de repente uma rajada abriu a frágil janela e quase todo o ar do mundo entrou por aquelas portadas.

Um pequeno copo, esquecido em cima da mesa, não resistiu à mão invisível do “Adamastor” e estilhaçou-se no chão. Tão rápido quanto pôde, Consciência, que se encontrava a meditar sobre a natureza e o incómodo dos seus maus humores, levantou-se e correu à janela, fechando-a sem demora. A calma regressou à sala. Do outro lado, lá fora, a intempérie continuava, indiferente e sem sossego aparente.

Consciência e Lógica eram duas amigas inseparáveis que há muito habitavam aquele modesto sótão. Com o tempo, Consciência ficara mais introspetiva e melancólica, enquanto Lógica mantinha uma irritante vivacidade e juventude, ainda que sem as mesmas certezas de outrora. Eram amigas inseparáveis, mas muito diferentes nos modos e atitudes perante a vida.

Consciência era empática e dependente. Muitas vezes não segura das decisões e, quase sempre, carregava uma culpa que lhe dobrava os ombros e arqueava as costas. Em não raras ocasiões, quando a situação lhe parecia difícil, ou a escolha incerta, nessas demandas mais atribuladas, recorria à sua amiga, de quem quase sempre recolhia bons conselhos. Lógica era diferente. Tinha perante a vida uma outra atitude. Vivia num mundo de aparente apatia, de onde emergia só quando solicitada e adequadamente estimulada. Porém, estava sempre disponível e nunca ninguém lhe ouvira uma recusa ou um frugal não sei. Tinha sempre soluções. Acusavam-na de não ser empática e viver num mundo que raramente se abria. Contudo, para quem a conhecia como Consciência, Lógica estava sempre presente e disponível. Apenas não gostava de se intrometer.

Naquela tarde, as duas amigas continuavam tomadas por um mutismo e um temor próprios da incerteza do momento. Pelo menos assim pensou Consciência, que, afundando-se de novo no sofá, olhou de soslaio para a sua amiga e disse:

— És sempre a mesma coisa! Tens-te por muito fina, mas és incapaz de mexer uma palha!

Lógica, que se encontrava entretida a nada fazer, respondeu com serenidade. — Estava perdida no meu vazio, num limbo sem passado, presente ou futuro.

Para Lógica sempre fora assim. O tempo eram ranhuras no calendário, pequenos traços impessoais, todos iguais, sem um ontem, um hoje ou um amanhã. Com um “olhar bovino” fixou a sua amiga e tentou um diálogo. – Se me perguntares, posso calcular com facilidade qual a força do vento que abriu a janela e fez tombar o copo, ou qual a força necessária para quebrar qualquer outro objeto aqui na sala. Se te incomodas com aquele copo partido, talvez eu te possa ajudar calculando a probabilidade de caírem cadeiras, virar a mesa ou mesmo partir-se o espelho onde passas horas a “mirar-te”. – Sabias que os humanos dizem que quando um espelho se parte ocorrem sete anos de “azar”? Queres que te calcule para os espelhos que se partiram desde sempre, quantos anos acumulados de desgraças os humanos ainda têm de penar? perguntou Lógica, que nunca antevia os limites da sua inconveniência.

— Que me importa que consigas esses cálculos –........

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