#Thanatos2 |
Era a sexta ou sétima vez que Clarice me consultava no espaço de um ano. Já me tinha procurado em visitas anteriores, mas dessas nada mais tinha resistido que inócuos registos. Porém, tudo se alterara no espaço de pouco mais de um ano.
A primeira visita de que me recordo ocorreu em novembro do ano anterior. Clarice devia ter pouco mais de cinquenta anos. Entrava então na fase de vida em que o feminino se esfuma em ténues memórias. Clarice entrava nessa fase da vida.
Tinha um rosto fechado, mas não duro, apenas sem luz. O olhar era oblíquo e descaído, e a expressão surgia languida no tom, sem chama nem curiosidade. Por entre os cabelos sobressaía a alvura das raízes, como se algo premeditadamente lhe expulsasse qualquer colorido da vida. Os lábios estavam secos e áridos como se há muito procurassem o calor de um beijo. Não se apresentava esmerada no aprumo, mas também não tinha decaído numa melancolia sem retorno. Havia nela algo que apelava ao abandono, mas um abandono a que resistia como quem procura uma âncora onde se balancear.
Entrou sem palavras e sentou-se numa das cadeiras disponíveis em frente à secretária onde pregou o olhar sem dizer palavra.
– Bom-dia, D.ª Clarice, então como tem passado? Disse-lhe, um pouco mecanicamente, mas com a afabilidade de quem se disponibiliza para escutar.
Adivinhei-lhe no tremer de lábios, como se da boca mais não houvesse que um vazio e a consciência de um espaço por preencher. Se lhe fosse possível responder sem emitir som estou certo que assim teria feito. De imediato percebi que não havia lugar para automatismos nem estribilhos. Teria de lhe dar espaço. Teria de aguardar para a ouvir. O registo clínico relatava-me alguns problemas menores, controlados há muitos anos. Porém, tudo em Clarice parecia discordante das anotações. Algo deveria ter ocorrido. Teria de esperar.
E assim fiquei alguns minutos, expectante e disponível. Clarice continuava com os olhos pregados na secretária, incapaz de desfazer a obliquidade do olhar. As mãos denotavam uma tensão crescente. Segurava a carteira com os dedos crispados e comprimia-a fortemente contra o peito como se assim evitasse uma erupção de sentimentos que parecia poder surgir a qualquer instante.
Ao fim de alguns minutos, o esforço de contensão pareceu ceder. Abriu-se uma brecha e pelo canto do olho escorreu uma lágrima. Primeiro era só uma, lenta e solitária. Uma que como uma batedora parecia procurar um caminho que mapeava para que outras, uma torrente delas, a seguissem. E não demorou muito para que o dilúvio lhe inundasse o rosto.
– Por que chora D.ª Clarice?
A pergunta era sincera, pressentia algo terrível e trágico que não conseguia imaginar.
– Por que choro, Sr. doutor? – Não respondeu de imediato. Continuava a olhar para o tampo de uma secretária onde parecia procurar as forças para continuar.
– Porque estou só! Porque há quase um ano que não vejo as minhas filhas, os meus amores. Tenho saudades delas, doutor. Muitas!
Inicialmente esboçou a resposta com um ligeiro aceno de cabeça, e uns breves instantes depois, disse:
– Todos os dias! Todos os dias, religiosamente!
Era uma resposta estranha. Havia pais que passavam semanas sem ouvir os filhos quando estes para fugir às armadilhas domésticas abalam para outras geografias.
– Então, vamos lá, não estão assim tão longe! Todos os dias as vê e ouve. Todos os dias tem um cantinho só seu que com elas partilha.
Pela primeira vez ergueu os........