Eu, atrasado mental, me confesso
No momento definidor António José Seguro teve medo.
No dia 2 de julho de 2013, Paulo Portas – que enquanto director do semanário Independente, se distinguira nos ataques ao Governo de Cavaco Silva – apresentou uma «demissão irrevogável» do cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros. Com essa demissão Portas poderia ter derrubado o Governo Passos Coelho, o Governo que se ocupava de resgatar Portugal da bancarrota de Sócrates. Mas o Primeiro-Ministro ignorou o pedido de demissão, e o Presidente da República não a aceitou, antes entrando em conversações com a coligação PSD-CDS e com o secretário-geral do PS, António José Seguro, para a criação de um «Compromisso de Salvação Nacional». O governo resultante de tal compromisso, propunha Cavaco, governaria 18 meses, após o que seriam convocadas eleições.
Seguro teve oportunidade de governar e de colocar-se em posição de ganhar as eleições de 2015. Mas teve medo e obedeceu às pressões socialistas. Ouviu Mário Soares, que depois de, em 2013, o considerar «um bom líder», lhe recomendaria a demissão em 2014 para não «dizer asneiras». Ouviu António Costa, que, depois de apodar de «poucochinho» as vitórias socialistas em eleições europeias e autárquicas, o expulsaria da cadeira. Nenhum deles queria comprometer o PS nas políticas de austeridade que o próprio PS negociara com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu, e o FMI. Ambos preparavam já a futura narrativa socialista: a austeridade era uma imposição da direita, não o resultado inevitável da irresponsabilidade dos governos socialistas de Sócrates. E no seu momento definidor, Seguro recuou e juntou-se a eles. Sem reparar, certamente, que assim punha as costas mais a jeito para a punhalada de António Costa. «Traição», «deslealdade», lamentaria ele antes das primárias de 2014.
Pouco importa a oportunidade perdida. Seguro é um bom socialista, o partido reconhece-lhe «todas as qualidades» como herdeiro de Mário Soares, Jorge Sampaio, António Guterres, José Sócrates, e sim, de António Costa. O próprio Seguro declarou agora que o apoio que deu ao longo da sua carreira à eleição de Soares e Sampaio – lembrando «o património de princípios e valores defendidos [por ambos] a partir da Presidência da República» – o «abençoava» para que os socialistas o apoiem agora.
Eleito, Seguro defenderia «a partir da Presidência da República», o património socialista de «princípios e valores».
Se um dia, como Soares, um Seguro quiser atacar persistente e demagogicamente – lá de um........
