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Quociente de ingerência /premium

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07.05.2019

À primeira vista, o momento em que manifestantes venezuelanos fazem frente aos tanques, em Caracas, lembra o que ocorreu há 30 anos na Praça Tiananmen, em Pequim, quando um chinês se pôs à frente de uma coluna de carros de combate. Em ambas vemos gente que, por viver há tanto tempo numa ditadura comunista na bancarrota, onde se anda a pé ou de bicicleta, já não está habituada a lidar com circulação automóvel nas ruas e deixou de saber comportar-se face a veículos motorizados. Contudo, essa é uma análise superficial e preguiçosa e o leitor sabe que não é isso que encontra aqui. Nos meus textos há, sim, análise profunda e laborada, porém idiota.

Uma observação mais cuidada a estas duas altercações no trânsito revela a diferença fundamental entre elas. E não, não é o atropelamento em Caracas, embora, de facto, seja extraordinário o momento em um dos tanques, perseguindo os manifestantes, galga o separador central da estrada e passa a ferro uma ou duas dúzias de pessoas. São imagens incríveis. Não acredito que haja alguém que não tenha ficado impressionado, alguém que achasse verosímil acontecer aquilo. Fico perplexo de cada vez que revejo as imagens. Como é possível, em 2019 na Venezuela, ainda haver gasolina para aquelas acelerações? Um arranque a alta rotação, subindo um obstáculo grande e vários pequenos? Mesmo tratando-se de lingrinhas, que a população está toda à míngua? Aquela condução desportiva é coisa para queimar 30 litros aos 100. Fiquei estupefacto. Mas não fui o único: nas imagens, percebe-se que os atropelados também não estavam à espera que o condutor puxasse tanto pelo motor.

Mas, como dizia, não é essa a diferença essencial entre os acontecimentos de Pequim e de Caracas. A grande diferença está nos manifestantes. Como os venezuelanos estão todos a fugir, é difícil ver à primeira. Mas uma visualização atenta permite verificar que,........

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