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O Paradoxo do Privilégio aplicado aos transportes /premium

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11.06.2019

Na semana passada, Matos Fernandes garantiu que não há caos nos transportes públicos. Tem andado a dormir. Se calhar, em vez ministro do Ambiente, é ministro do Ambien. Percebe-se agora porque é que recomendou aos portugueses mais pobres que baixem a potência da electricidade: se tiverem de optar por usar a máquina da loiça em vez da televisão, pode ser que deixem de assistir, no telejornal, às bacoradas do ministro quando fala das suas vidas.

É óbvio que Matos Fernandes não faz a mínima ideia do estado dos transportes, pela simples razão que não os utiliza. Mas, sejamos justos, não é o único. Aliás, de entre todos os decisores políticos e comentadores que opinam sobre as suas decisões, quantos é que utilizam transportes públicos?

Nota: quando eu digo utilizar, é utilizar diariamente e por necessidade. Não são aquelas pessoas que usam porque dá mais jeito, têm metro à porta, a não ser que a meio do dia tenham dentista, nesse caso levam o carro. Ou aquelas que, quando há greve nos comboios, podem ligar para o escritório a avisar que nesse dia trabalham a partir de casa e levam o computador para aquela esplanada que tem wifi grátis, café artesanal e uns muffins de quinoa sem glúten divinais. Ou também aquelas que, estando bom tempo, vão de bicicleta, que Lisboa tem estupendas ciclovias e só por preguiça é que as pessoas não optam pelo exercício. Ou ainda as que, se o autocarro vier cheio (o que é uma maçada, porque há gente que cheira mal logo de manhã, como é possível?), vão a pé. Chegam 15 minutos atrasados, mas não faz mal, porque a chefe é uma das melhores amigas.

Ou seja, não falo das pessoas que usam o transporte público por, naquele dia, ser a alternativa mais cómoda de entre uma vasta paleta de opções. Falo das pessoas que, todos os dias, sem excepção, ou apanham um transporte degradado, sobrelotado e........

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