Figuras de Ursula
A minha filha está a estudar para o exame de Português do 9.º ano. Tem algumas dificuldades com figuras de estilo e ontem pediu-me ajuda. Queria um exemplo de eufemismo. Teve sorte, porque eu estava justamente a pensar naquele ocorrido no passado dia 10 de Março, em Paris, quando Ursula von der Leyen afirmou que o desinvestimento em energia nuclear da Europa foi um “erro estratégico”. Mesmo louvando a humildade da Presidente da Comissão Europeia em admitir o engano da UE, a confissão peca por defeito. O que Ursula referiu não é bem “erro estratégico”.
Vamos lá ver, erro estratégico é pedir peixe cozido num rodízio brasileiro. Erro estratégico cometeu o tipo que optou por se dedicar à pintura em vez de fazer parte dos Beatles. Erro estratégico é Napoleão ter invadido a Rússia. “Erro estratégico é eu ter-te pedido ajuda para estudar Português”, interrompeu a minha filha. “A explicação está a ficar um bocadinho maçadora”, atalhou, mostrando que afinal domina o conceito de eufemismo e o aplica correctamente na conversa. Levantou-se e foi-se embora. Mas eu já não conseguia parar, tinha aberto a porta à minha monomania predilecta.
Isto que a Europa fez de recusar uma fonte de energia abundante, fiável e facilmente disponível para apostar antes em fontes intermitentes e não despacháveis, não é um mero erro estratégico, está noutro patamar de engano. Em combinação com a desindustrialização voluntária, enquadra-se mais na definição de “cretinice existencial”.
Está ao nível daquela tribo africana que optou por não aprender a dominar o fogo, pois era apenas “uma moda passageira”, o fumo fazia tossir, as cinzas sujavam imenso e a comida cozinhada queimava a língua. “Que tribo era essa, Zé Diogo? Lá estás tu outra vez a aldrabar, numa patética tentativa de tornar a tua crónica interessante. O ChatGPT não encontra referências a essa tribo”. É justamente esse o meu ponto: não existiu. É impossível existir uma tribo tão burra. E, se existiu, extinguiu-se. Nenhum grupo de pessoas optaria conscientemente por descartar um avanço tecnológico crucial como o fogo.........
