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Sem engenharia, continuaremos a somar tragédias!

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13.02.2026

A sucessão ainda recente (e espero que na memória de todos) de fogos florestais, nos Verões, e agora das calamidades de Inverno, provocadas por depressões batizadas com nomes irritantes – Francis, Goretti, Harry, Ingrid, Joseph, Kristin (a mais destruidora), Leonardo e Marta – deixou um rasto que não se mede apenas em hectares ardidos, casas e empresas destruídas ou infraestruturas danificadas. Mede-se em vidas estragadas, em territórios fragilizados e numa repetição reiterada dos mesmíssimos erros.

Há algo estruturalmente incorreto na forma como respondemos a catástrofes: a engenharia, e a engenharia que sabe gerir, continua fora da estratégia, do pensamento à ação.

Temos coragem, entrega, voluntarismo até. Às vezes demais. Nestas alturas os autarcas andam no terreno, os bombeiros ficam exaustos, os militares estão mobilizados, a proteção civil dá um ar da sua graça, os cidadãos ajudam como podem (e muitos a fazê-lo com riscos inaceitáveis, caindo de telhados, trabalhando sem segurança, pagando com hospitalizações ou com a vida) e tudo isto, obviamente, merece máximo respeito. Mas a boa vontade não substitui conhecimento. Ajuda não é trabalho. Ajuda não é profissionalismo. Podemos e devemos ajudar. Mas faz falta mais. É como num hospital. Podemos e devemos fazer voluntariado, mas o voluntário não substitui o enfermeiro ou o médico.

Nestes contextos, a engenharia que sabe gerir não é acessória. É central. E o comando dessa engenharia, a liderança única (comando único logístico) foi coisa que nunca  ninguém percebeu nem tão pouco quer perceber. Há apenas jazz. Cada um por si. E o que se vai ouvindo é mau jazz. Muito mau jazz.

É a engenharia que sabe organizar meios, decidir se faz sentido centralizar ou descentralizar materiais, calcular necessidades reais, alocar recursos escassos a prioridades certas. É a engenharia que faz o fit entre recursos e território, que conhece aqueles mesmos materiais, a logística, os fluxos, os tempos, a segurança. É a engenharia que reconstrói e que, se chamada a tempo, evita que seja preciso um esforço tão desproporcionado e com resultados mais fracos.

Curiosamente, até a inteligência artificial nos expõe esta falha. E é preciso engenharia para saber o engodo a que nos expomos. Se perguntarmos a um sistema (LLM) de IA onde é necessária mais ajuda, ele irá buscar os locais mais divulgados, i.e., precisamente aqueles que já têm ajuda. Nunca nos indicará os sítios onde a ajuda continua a faltar, mas que não estão sinalizados, mediaticamente visíveis ou devidamente alimentados nos sistemas. Não por malícia, mas por desenho. O mesmo acontece connosco: respondemos ao buzz, não à necessidade real. Por isso enchemos de produtos de limpeza e de bens alimentares as infraestruturas quando o que nos está a ser pedido são oleados, são telhas, são materiais de construção e é dinheiro.

Este é o mesmo padrão que vimos inicialmente na vacinação, e em tantos outros contextos críticos: a engenharia entra tarde, ou nem sequer entra. Decide-se primeiro, improvisa-se depois, e só no fim se pergunta a quem sabe planear, dimensionar e executar.

Entretanto, multiplicam-se comentadores, performers da tragédia, artistas que se vão aproveitando da desgraça de outros em benefício próprio. Muito do que se diz e se faz desajuda. Falta método, desenho e capacidade de execução informada. Em suma, falta engenharia. E falta engenharia que esteja no comando único centralizado de todas estas forças. De outra forma não é possível.

Continuamos a ser o país onde o desenrasca (que, por melhor que seja, não é profissional) mais se sobrepõe ao conhecimento. Onde se valoriza a presença e não a competência. Onde olhamos para os currículos de quem coordena reconstruções e sistemas de apoio a catástrofes e quase não vemos engenheiros.

É triste. E é, obviamente, perigoso.

Sem engenharia, continuaremos a reagir tarde, mal e caro. E continuaremos sem prevenção.

Com engenharia, poderíamos prevenir, proteger, organizar e reconstruir melhor. E aprenderíamos rápido que só há uma forma de atuação: centralizada, em comando único. A escolha é nossa. Mas as consequências também.

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