Burcas — extrema-esquerda, utilitarismo e xenofobia

Há temas que, mais do que dividir, revelam o grau de maturidade moral de uma sociedade. A burca é um deles. Por detrás de um pedaço de tecido, esconde-se uma teia de dilemas éticos, políticos e civilizacionais que vão da filosofia antiga à política moderna: o estoicismo das intenções puras, o utilitarismo dos resultados práticos e a xenofobia disfarçada de defesa cultural.

Comecemos pelo princípio: o uso da burca, tal como o conhecemos — um véu integral que cobre o rosto e o corpo — não é uma tradição milenar do Islão, mas um costume recente e regional. Nasceu nas sociedades tribais do Afeganistão e do Paquistão, consolidou-se sob o regime talibã a partir de 1996, e espalhou-se nas últimas décadas como símbolo político de submissão, mais do que de fé. O Alcorão fala de modéstia e de véu (hijab), mas nunca de ocultação total do rosto. A burca é, portanto, um produto do machismo, não da teologia.

Posto isto, discutir a sua proibição é discutir até que ponto um........

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