Trumpismo, anti-trumpismo e a guerra na Europa |
Tenho amigos que gostam de Donald Trump. Gostam a sério, com convicção e sem pedir desculpa. Não o fazem por distração nem por ignorância, mas por cálculo cultural. Veem nele o homem que interrompeu a marcha triunfal do wokismo, que fez tropeçar o catecismo identitário, que disse “não” onde tantos sinalizaram virtude ao ajoelhar. Aplaudem-no por ter recusado a psicopatologia da culpa colectiva, por ter tratado como transtorno mental aquilo que durante anos foi vendido como superioridade moral, e por ter devolvido à linguagem um mínimo de correspondência com a realidade. Celebram-no, por fim, pela derrota de Kamala Harris, figura que, vista da Europa, parecia uma Catarina Martins com mais gargalhada, melhor inglês e uma pigmentação politicamente correcta.
Tenho também amigos que detestam Trump. Alguns porque são filhos legítimos do mundo woke e não lhe perdoam o crime capital de existir fora do guião e lhes tirar o chão das suas certezas. Outros porque reconhecem em Trump a caricatura quase simétrica dos defeitos que o próprio wokismo elevou a norma: a vulgaridade apresentada como autenticidade, a irracionalidade vendida como instinto “genuíno”, a intolerância embrulhada em “coragem”, o egocentrismo como método e a irresponsabilidade como estilo. Para estes, Trump não é a antítese da época. É o seu produto final. O woke prometeu virtude e Trump vira o disco e toca o mesmo.
E depois há um terceiro grupo, mais interessante, e menos histérico, que reconhece em Trump eficácia na desconstrução do wokismo e na recuperação de certos reflexos civilizacionais elementares; que lhe concede lucidez na identificação de ameaças reais; mas que o rejeita pela hostilidade à Europa, pelo desprezo pela ordem internacional que a própria América construiu, pela lógica transaccional aplicada às alianças e, sobretudo, pela inclinação autocrática, à “russa”, que em vez de conter Vladimir Putin parece compreendê-lo, desculpá-lo e, por vezes, recompensá-lo.
É neste grupo que me situo.
Desde logo porque sou europeu. E porque pertenço a um país pequeno, daqueles que aprendem cedo que as grandes potências raramente erram por acidente.
Vistos de fora da bolha do poder americano, os impulsos de Trump em política externa são menos “realistas” do que se afirma e muito mais destrutivos do que se admite. Fragmentam o Ocidente, enfraquecem aliados naturais, reforçam adversários estratégicos e tornam o mundo, o meu mundo, objectivamente mais perigoso. A médio prazo, isto é mau para a Europa. Mas também é mau para a América. Um sistema de alianças não é........